A nova ordem internacional das grandes potências

Difícil encontrar um sinal mais relevante da mudança da ordem internacional do que o que se passou nos Estados Unidos na semana de 21-27 de Setembro de 2026. Ao mesmo tempo que decorria, em Nova Iorque, a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente da República Popular da China, a convite do presidente dos Estados Unidos, aterrava na base de Andrews, o aeroporto das entidades oficiais de visita à Casa Branca.

Donald Trump e Melania recebiam Xi Jinping e Peng Liyuan com o máximo de pompa e circunstância para uma visita de Estado de três dias. O político chinês ficava com o seu hospedeiro e não ligava nada ao suposto órgão supremo do multilateralismo, cujo Secretário-Geral, António Guterres, se despedia também da organização.

Trump fizera aí um discurso “à Trump” na Terça-Feira 22 e regressara a Washington para receber o seu visitante asiático, reconhecendo implicitamente que estar com ele era muito mais importante que ficar em Nova Iorque na ONU multilateral, cuja utilidade parece hoje ter a ver com o funcionamento de algumas das suas agências permanentes, como a FAO ou a UNESCO, e a oportunidade para encontros bilaterais de países que têm questões, boas ou más, a tratar com os seus iguais.

O encontro dos líderes das duas mais importantes potências mundiais obedece e integra-se numa tendência que ganhou força desde a vitória eleitoral de Trump em Novembro de 2024, a substituição da chamada “ordem liberal internacional” por uma nova ordem que podemos denominar, com alguma prudência sujeita a verificação, ordem das grandes potências. Isto faz algum sentido. Xi conseguiu, nos seus anos no poder, consolidar o seu poder no Partido Comunista Chinês, o que quer dizer na China.

Apesar de Trump enfrentar umas mid-term elections para o Congresso, em que pode vir a perder o controlo, pelo seu Partido Republicano, da Câmara dos Representantes e até do Senado – resultado do descontentamento de uma parte dos eleitores americanos com as consequências económicas da guerra no Médio Oriente contra a República Islâmica do Irão o que irá limitar a sua capacidade de agir em política interna – a política externa, fórum do Executivo, não vai ser afectada substancialmente.

Trump trouxe para a política internacional uma revolução que teve a ver com um forte incremento do realismo e a consideração dos interesses nacionais de cada Estado, como um guia mais importante para a estratégia nacional do que considerações ideológicas.

E as lideranças da maioria das grandes potências – China, EUA, Rússia, India e Japão – parecem estar neste comprimento de onda. Por outro lado, as características psicológicas de todos estes líderes – realismo, nacionalismo, autoritarismo – criam entre eles “afinidades electivas”.

E por isso, como disseram alguns comentadores americanos e ingleses, o mais importante no encontro Xi-Trump ficou por tratar e por dizer. E os temas mais delicados, como o futuro de Taiwan ou o apoio económico-financeiro e militar de Pequim ao Irão, em guerra com os Estados Unidos, ficaram por discutir.

Mas além dos dois presidentes se irem encontrar ainda este ano mais duas vezes, Trump refreou a habitual verbosidade e Xi, na sua discussão, foi dizendo que talvez, desta vez, a “Armadilha de Tucídides” (a tese de Graham Allison sobre a inevitabilidade do confronto entre o detentor do poder ou da hegemonia mundial –os EUA – e o Challenger – a China) não venha a verificar-se.

Conteúdos desenvolvidos por Gaporsul

Ser Associado da Câmara de Comércio significa fazer parte de uma instituição que foi pioneira do associativismo em Portugal.

 

Os nossos Associados dispõem do acesso, em exclusividade, a um conjunto de ferramentas facilitadoras da gestão e organização das respectivas empresas.