A escalada do preço do petróleo à medida que o conflito EUA-Irão se vai intensificando chamou a atenção para a íntima relação, a partir do século XX, entre a geopolítica dos conflitos e a geoeconomia do crude.
Longe vão os tempos em que Edwin Drake, em 1859, em Titus Ville, Pensilvânia, explorou o primeiro “poço” de petróleo e os irmãos Rockfeller, John e William, fundaram, em 1870, a Standard Oil Company em Cleveland, Ohio. na Grande Guerra de 1914-1918, quando os camiões de transporte começaram a substituir a tracção animal para transportar soldados, munições e víveres e para puxar canhões, marcou-se a diferença. E foi quando apareceram os primeiros aviões de caça e os primeiros carros de assalto. E no mar, quando a propulsão a carvão foi substituída pelo fuelóleo. Tudo isso se passou nessa “Grande Guerra”, a mãe de todas as outras guerras e da Idade Moderna.
Toda esta mudança deu importância ao petróleo e às áreas onde ele existia. Diga-se que em 1913, nas vésperas da guerra, a produção mundial de petróleo eram 53 milhões de toneladas, das quais 34 eram americanas. Na Europa não havia petróleo e entretanto surgira uma forte indústria automóvel que, com Henry Ford, se transformou num produto acessível a muitos.
E áreas como o Médio Oriente (Pérsia, Iraque, Síria) e a Rússia (Baku) vão-se tornar estrategicamente importantes por causa da produção de petróleo.
A Segunda Guerra Mundial vai ser uma guerra essencialmente motorizada, carente de enormes quantidades de combustível, penalizando quem não tinha esse recurso disponível. Embora a indústria alemã fosse alimentada a carvão (que a Alemanha tinha em grandes quantidades) as forças operacionais – como os blindados, os aviões, os navios – consumiam grandes quantidades de combustível. E ao alcance de Berlim, em solo europeu e aliado, só havia petróleo na Roménia. Deste modo, a estratégia da Alemanha acabou condicionada pela necessidade de petróleo e de garantir petróleo. No final essa falta de combustível prendeu, por exemplo, nos últimos meses da guerra, a Luftwafe no chão por falta de gasolina.
No pós-guerra o mercado do crude, dando conta da sua sensibilidade e importância, tendeu a organizar-se corporativamente. Assim, apesar de algumas diferenças políticas, cinco países produtores importantes – a Arábia Saudita, o Irão, o Iraque, o Kuwait e a Venezuela – criaram, em 1960, a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). O objectivo da organização era coordenar as políticas de produção e comercialização do petróleo, defendendo os seus interesses e regulando o mercado.
Isso viu-se claramente nas guerras entre Israel e os países árabes , como na guerra do Yon Kippur (1973); e depois, nas chamadas guerras do Golfo, que concluíram com a segunda guerra (2003) que derrubou Sadam Hussein e introduziu uma situação de fragmentação e confronto na região, na sequência da política dos neoconservadores americanos.
Deste modo, o petróleo, ou melhor, os hidrocarbonetos, têm um impacto geopolítico decisivo no tempo da Guerra Fria. Os grandes produtores – Estados Unidos, União Soviética, Arábia Saudita, tinham os seus alinhamentos; os dois primeiros eram líderes dos blocos, e os sauditas, desde a visita em Fevereiro de 1945 de F.D. Roosevelt ao rei Ibn Saud, estavam com Washington.
Verdade que no século XXI as políticas ditadas pela ameaça climática tiveram o seu impacto nos hidrocarbonetos; mas depois desse primeiro impacto, as políticas mais realistas ditadas pelos interesses e razões de Estado apontam para uma transição relativamente demorada e, até ver, o petróleo e o gás natural continuam a ser essenciais para a economia industrial do globo.
Isto vê-se no momento presente, com a intensificação da guerra no Médio Oriente, os ataques aéreos americanos ao Irão e as represálias iranianas, no controlo do estreito de Ormuz e nos ataques aos Estados Sunitas, aliados de Washington. Os preços do barril vão subindo e o Brent voltou a passar os 100 US Dólares por barril na semana de 19-26 de Julho, quando em resposta aos bombardeamentos norte-americanos, os iranianos e os seus aliados Houtis escalaram as interferências no comércio regular do crude, continuando a fazer da economia mundial um refém.
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