A morte de Nemésio Osguera Cervantes, de nome de guerra “El Mencho”, em 22 de Fevereiro passado, numa operação das forças armadas mexicanas assistida pelos serviços de inteligência americanos, e a reacção de vários protagonistas do crime organizado mexicano a essa morte trouxeram outra vez para as frentes noticiosas o problema do consumo de drogas e da indústria criminosa a que dá origem.
É uma longa história. Foi em 1914 que o representante Francis Burton Harrison, de Nova Iorque, propôs uma lei pela qual uma taxa especial passava a ser imposta a “todos os produtores, importadores e distribuidores” de opiáceos e drogas semelhantes nos Estados Unidos. A proposta foi aprovada e a nova disposição assinada pelo presidente Wilson, em 17 de Dezembro de 1914.
Mas a lei, que caiu sobre os industriais e comerciantes de cocaína, heroína e morfina nos Estados Unidos, teve imediata repercussão no vizinho do Sul, o México. E assim, nos anos 1930, o México tornou-se um produtor de droga. Os governantes americanos, compatriotas dos consumidores, exerceram grande pressão sobre os governos mexicanos, para que reprimissem a produção e distribuição que acabavam também por estimular, pois os clientes finais estavam a Norte, na América.
A perseguição, embora violenta, não teve grande sucesso. E em 1980-1990, depois da ascensão e queda dos carteis colombianos, ligados ao grande barão da droga, Pablo Escobar, foi a vez de, no México, surgirem as poderosas organizações criminosas no narcotráfico – os cartéis.
O primeiro de todos foi o Cartel de Tijuana, uma empresa familiar dos irmãos Arellano Félix, da Baixa Califórnia, liderado por Benjamim Arellano Félix. Depois vieram o Cartel de Sinaloa, o Cartel do Golfo e o Cartel Juarez. Estas organizações criminosas foram multiplicando o seu poder e estendendo as ruas redes de acção e influência.
O governo mexicano ripostou e conseguiu alguns sucessos: um dos coordenadores desta luta foi o presidente Filipe Calderón, eleito em 2006, que desencadeou uma grande operação em Michoacan, terra natal do Presidente. Embora vários narcos importantes fossem detidos, Calderón foi acusado de ter desencadeado uma espiral de violência em que houve mais de 100 mil homicídios e 22 mil desaparecidos.
Alguns grandes chefes dos cartéis foram entretanto capturados e estão presos nos Estados Unidos: é o caso de “El Chapo” Guzman e de “El Mayo” Zambada, do cartel de Sinaloa, presos em 2018 e 2024 respectivamente, e a cumprirem pena de prisão perpétua nos Estados Unidos. A sua prisão e ausência da chefia no cartel de Sinaloa levou a uma violenta luta de facções pela liderança do cartel entre “los Chapitos”, os filhos de “El Chapo” e a “Mayiza” – os seguidores de Ismael Zambada Sicairos, “Mayito Flaco”. Esta guerra entre bandidos já se cifrou em milhares de mortos e desaparecidos. A guerra começou em 9 de Setembro de 2024. “El Mayo” Zambada tinha sido preso em El Paso, no Texas, por agentes da DEA; segundo ele, “El Chapo” estaria envolvido na trama que levou à sua prisão.
A reacção dos cartéis à morte de “El Mencho” traduziu-se numa série de actos violentos. “El Mencho” era, como Calderón, originário de Michoacan. Foi o fundador, em 2009, do Cartel de Jalisco Nueva Generación (CJNG), que o State Department incluiu, em 2025, na lista das organizações terroristas.
O CJNG estava nos 32 Estados mexicanos e era considerado também por esta extensão; estava especializado na exportação de cocaína, metanfetaminas, fenatil e tráfico de pessoas para os Estados Unidos. Também se envolveram em acções terroristas, como a tentativa de assassinato de Omar Garcia Harfuch, então chefe da polícia da Cidade do México e agora Secretário da Segurança Federal.
Na reacção à morte de “El Mencho”, os cartéis mataram, em Fevereiro de 2026, 62 pessoas em 20 Estados, entre eles 25 militares da Guarda Nacional. Seguiu-se, no cartel de Jalisco, uma luta pela sucessão, cujo favorito parecia ser, a todos os títulos, Audias Flores Silva, de nome de guerra “El jardineiro”. Mas este foi capturado pela polícia mexicana em finais de Abril. Como o filho de “El Mencho”, Rubén Oseguera González (“El Menchito”) está preso nos Estados Unidos, a luta pela sucessão deve continuar e ser dura.
Conteúdos desenvolvidos por Gaporsul

