O Paradigma da Asean

A principal consequência geopolítica da nova Administração norte-americana é que os Estados Unidos, abandonando um anterior empenho ideológico na chamada “ordem liberal internacional”, entraram numa política ditada essencialmente pelo interesse nacional. A Administração Trump está a seguir esta estratégia coerentemente.

Curiosamente, nessa matéria, segue a orientação do seu rival e challenger, a República Popular da China, que há muito abandonou a ideologia comunista e se orienta por um nacionalismo expansionista via influência económica, dentro de uma orientação geral de capitalismo de direcção central. E se formos a ver, é também esta a linha da Índia de Modi; e na segunda linha dos poderes mundiais, a Rússia, a Turquia, a Arábia Saudita, até o Brasil, seguem essa estratégia, ditada por um realismo despido de preocupações e expansionismos ideológicos.

Assim, temos hoje no mundo uma nova ordem que está a pôr o ponto final à geopolítica dominada por preocupações ideológicas das grandes potências, inaugurada há pouco mais de um século pela Grande Guerra e pela revolução soviética em 1917, que causou as respostas ideológicas radicais do fascismo e do hitlerismo.

Uma área muito interessante onde a rivalidade dos dois grandes poderes – Estados Unidos e China – se está a manifestar e a mostrar a natureza multipolar da nova ordem político-económica, é o Sueste Asiático, uma zona historicamente marcada pelos últimos anos dos impérios marítimos e comerciais europeus – inglês, francês, holandês, português (em Goa e em Timor-Leste) – e por um grande crescimento económico desde o fim do comunismo e da Guerra Fria.

Há uma organização regional importante – a ASEAN (Associação das Nações do Sueste Asiático) destinada essencialmente a promover o desenvolvimento nas relações económicas entre os países membros. Foi criada em 1967, em Banguecoque, na Tailândia, pela Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia, ainda no tempo da Guerra Fria. Mais tarde juntou-se o Brunei, em 1984; depois do fim da Guerra Fria, aderiram o Vietname, o Laos, Myanmar e o Camboja. Este mês de Outubro é a vez de Timor ser admitido.

O modo como os países membros da ASEAN se têm relacionado com as duas potências principais – EUA e China – é um exemplo dos modelos de cooperação da nova ordem mundial.

Há que referir a importância global destas relações – em 2024 o comércio do conjunto dos países da ASEAN com as duas superpotências totalizou 1,2 triliões de dólares americanos. A China tem explorado, na região, as suas iniciativas do tipo Belt and Road Iniciative (BRI), com grandes projectos de infraestruturas no Camboja e no Laos; já o Vietname, mantendo uma grande visibilidade política na relação com Pequim, com visitas frequentes de Xi Jinping ao país, tornou-se um importante exportador de componentes industriais para os Estados Unidos (120 biliões de dólares em 2024). As Filipinas, pelo contrário, reforçaram os laços políticos e de segurança militar com Washington, mas mantêm boas e fortes relações económicas boas com Pequim.

A Indonésia, como potência principal do grupo ASEAN, segue uma posição de estrito equilíbrio entre os dois grandes: coopera com ambos na segurança marítima, na estabilidade da zona, importa tecnologia chinesa de segurança , mas realiza exercícios navais com os americanos.

Deste modo, pode dizer-se que domina na região uma estratégia de equilíbrio pragmático e de gestão, independente na geopolítica e na geoeconomia, o modelo que parece caracterizar o futuro das relações internacionais.

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