Trump, a tradição proteccionista do gop e a perspectiva da guerra comercial

Donald Trump iniciou o seu segundo mandato na Casa Branca com uma série impressionante de “executive orders” sobre temas quentes, desde as “questões fracturantes” da multiplicação de géneros (passaram a ser dois e só dois) até ao clima e à imigração.

Outro tema quente e quase um golpe de misericórdia na já muito ferida ordem liberal internacional são as medidas proteccionistas sob forma de taxas às importações. A racionalidade desta medida é contribuir para a reindustrialização da América, um tema muito forte da campanha de Trump/Vance e do Partido Republicano.

O presidente não se inibiu de mostrar os seus gostos ao dizer “the most beutifull word in the diccionary is tariff”, mas mostrou-se, ele e os seus conselheiros económicos, mais cauteloso na aplicação, tudo levando a crer que estamos perante a clássica “arte do negócio” trumpiana.

A imposição de tarifas altas tem uma forte tradição no GOP, não só para proteger novas indústrias americanas, como para trazer receitas ao Tesouro. William McKinley, um dos presidentes mais citados e elogiados por Trump, foi um protecionista; em 1912, com a eleição de Woodrow Wilson e uma maioria democrática no Congresso, houve uma redução das tarifas.

Mas em 1920, com a eleição do republicano Warren Harding, o Congresso votou nova legislação protecionista, destinada a defender os agricultores americanos dos produtos importados da Europa, onde a agricultura recuperava depois da guerra. Herbert Hoover, candidato republicano em 1928, manteve o discurso a favor da imposição de tarifas altas às importações de produtos agrícolas, ao mesmo tempo que vários sectores industriais faziam também pressão no mesmo sentido.

Hoover foi eleito e em 1930 o Congresso aprovou um “Tariff Act”, a “Smoot-Hawley Tariff”, que reforçou o proteccionismo americano. Os europeus ripostaram e entrou-se numa guerra comercial, contemporânea da “Grande Depressão”.

O Smoot-Hawley Act (dos promotores da legislação, o senador Reed Owen Smoot, republicano do Utah e o representante Willis Chatman Hawley, republicano do Oregon, destinava-se a proteger os agricultores e as empresas americanas da concorrência estrangeira. As tarifas subiram para 20% e mais de 25 países responderam taxando os produtos americanos. O comércio internacional caiu em queda livre; a crise foi agravada pela descoordenação e desconexão financeira internacional com o breve regresso da Grã-Bretanha ao padrão ouro, que abandonou de seguida. Mais de mil economistas pediram ao presidente Hoover que exercesse o seu veto contra o Smoot-Hawley Act, mas tal não aconteceu.

No presente momento, as condições político-sociais e sobretudo geopolíticas são muito diferentes da situação de há um século. Há um século, na década de 1920-1930, o mundo era ainda dominado, na Ásia e na África, pelas potências europeias; hoje ao Estados Unidos são o primeiro sector mundial, a China e a Índia independentes são colossos políticos e económicos e é a Europa que está em clara decadência.

Embora Trump tenha adiado a aplicação das novas tarifas ao Canadá e ao México, no Domingo 9 de Fevereiro reiterou o discurso protecionista dizendo que “o aço e o alumínio” iam sofrer tarifas de 25%. Nesta situação, o Canadá, o Brasil, o México e a Coreia do Sul, que foram em 2024 os maiores exportadores de aço para os Estados Unidos são atingidos. A China não é muito atingida neste caso, pois não são significativos os valores da exportação de aço para os EUA.
Mas em resposta aos 10% de subida das taxas alfandegárias em todas as mercadorias chinesas, Pequim foi anunciando em 4 de Fevereiro uma tarifa de 15% no carvão e no gás natural líquido, e uma tarifa de 10% do petróleo bruto, na maquinaria agrícola e em vários tipos de viaturas. Ao mesmo tempo, o governo chinês acusou Washington de violar as regras da Organização Mundial do Comércio.

As razões de Trump ao impor esta majoração de 10% em todos os produtos chineses, têm a ver com o seu programa de reindustrialização da América, com os respectivos empregos para os trabalhadores americanos. Mas é claro que os países atingidos não se vão ficar.
Veremos o que resulta desta “guerra comercial”.

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