Na campanha para as eleições americanas de Novembro deste ano de 2024 tem ficado muito claro o que divide Democratas e Republicanos quanto a valores nacionais e familiares.
Os democratas, com a Vice-Presidente Kamala Harris (que, vinda da esquerda do partido, assumiu no “ticket” de 2020 a função de equilibrar o centrista Joe Biden) e o seu companheiro de lista, o governador do Minnesota Tim Walz, apresentam-se inequivocamente como “liberals”, no sentido americano; ou seja, como “progressistas”, em termos europeus. Por exemplo, em matérias de legislação da família e respectivos direitos, a candidata democrata, defende o “direito da Mulher de dispor totalmente do seu corpo” e, por isso, o direito absoluto ao aborto, qualquer que seja o tempo de gestação e qualquer que seja o espaço geográfico ou político. Assim, indo contra as disposições do Supremo Tribunal de Justiça norte-americano que, neste momento, atribui aos Estados, a cada Estado federado, a regulação do regime da chamada IVG, Harris defende uma norma única que imponha a liberalização total do aborto em todos os Estados da União.
Walz, como governador do Minnesota, tem sido também um defensor desta política e logo que o Supremo Tribunal tornou conhecidas as novas disposições, garantiu que o seu Estado estava aberto a todas as mulheres que tivessem dificuldade em realizar a “interrupção” nos seus Estados. Fez o mesmo em relação às mudanças de sexo para menores, sem autorização dos pais.
Bem pelo contrário, o team republicano, Trump-Vance tem, nestas matérias, posições conservadoras. Trump aderiu à tradição anti-abortista da imensa maioria dos seus apoiantes religiosos e J. D. Vance é, desde a sua conversão em 2019, um católico muito preocupado com as questões de demografia e natalidade, não só por causa dos princípios religiosos, mas também pela preocupante baixa dos nascimentos nos Estados Unidos.
Já quanto à Economia e às orientações da Economia há, no Partido Republicano, mudanças importantes em relação à tradição que vale a pena registar.
Todos se recordam que, no princípio da década de 1980, quer nos Estados Unidos, quer no Reino Unido, os republicanos de Reagan e os conservadores de Thatcher apareceram como os grandes apóstolos das reformas liberais na Economia. Estas reformas tinham, então, dois objectivos principais: baixar os impostos que estrangulavam as empresas e contrariavam o investimento; e combater o excessivo poder político dos sindicatos – como os mineiros ingleses e os controladores aéreos americanos.
É preciso também lembrar que era um tempo de alta inflacção e que, mais importante, ainda havia União Soviética e Bloco Socialista.
Desde então, muita coisa mudou: a URSS acabou e o socialismo como organização económica, pretendendo gerir centralmente a Economia e abolir a propriedade, também. As diferenças passaram agora a medir-se sobretudo pela fiscalidade.
O fim dos Blocos, as mudanças na China, a desindustrialização parcial da Euro-América também tiveram efeitos muito fortes sobre o Ocidente. Parte substancial das classes trabalhadoras – ou do que resta delas – largou os partidos comunistas e passou a votar em formações nacionais-conservadoras ou nacionais-populares, a que os adversários chamam formações de “direita radical” ou de “extrema-direita”.
Na América e na direita norte-americana do Partido Republicano está a passar-se o mesmo: em 2016, o neo-republicano e populista Trump escolheu para companheiro de lista Mike Pence, um republicano tradicional e partidário do liberalismo económico. Desta vez, no rescaldo da tentativa de assassinato, escolheu J. D. Vance, um nacionalista em política, conservador em família e costumes, mas proteccionista e solidarista em economia e segurança social.
Um exemplo é a diferença da sua resposta em relação aos liberais clássicos a propósito da Segurança Social: “Uma forma de perceber o problema da Segurança Social é a seguinte: os velhos não podem trabalhar, os novos podem e as crianças não podem” – respondeu a Ross Douthat do New York Times. Assim sendo, “faz sentido que as pessoas de uma certa idade sustentem os velhos e as crianças”.
Outro ponto importante da política económica de Vance tem sido, a partir do seu lugar no Senado como representante do Ohio, o apoio activo às indústrias americanas, contrariando tomadas de posição de estrangeiros e combatendo o poder chinês nos negócios. Tal como Trump, Vance é partidário da exploração na América do oil and gas, contra os excessos preventivos dos “radicais climáticos”.
Se o currículo de Kamala Harris é conhecido, o de Walz é menos; o actual governador do Minnesota deixou o seu posto de sargento-mor na Guarda Nacional dois meses antes de o seu batalhão ser mobilizado para o Iraque, e entrou para a política, candidatando-se à Câmara dos Representantes em 2006.
As suas posições políticas têm sido contraditórias: defendeu, por exemplo, os “gun rights”, recebendo uma letra A da Nacional Rifle Association (NRA), mas foi um dos primeiros congressistas a apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Quanto à Economia, Walz tem um passado de tensões fortes com os empresários do Estado do Minnesota. Os impostos sobre as empresas no Minnesota, não sendo muito elevados quando comparados com os europeus (9,8%), são os mais altos dos Estados Unidos.
A posição de Walz manteve-se desde que foi eleito e até endureceu a partir de 2022, quando os Democratas, além do governo do Estado, ganharam a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado local.
Trump continua a ser considerado, pelas sondagens, como melhor para a economia que Harris.

