Depois da chamada Supertuesday de 6 de Março, tudo se inclina para que a mais importante eleição mundial – a do Presidente dos Estados-Unidos – se vá travar entre o actual incumbente, Joseph (Joe) Biden, e o ex-presidente Donald Trump. Que assim vão repetir o duelo de Novembro de 2020, que Biden venceu.
Pode parecer estranho – e muita gente o diz – que os dois principais e quase únicos partidos norte-americanos não tenham alternativas a estas figuras, mas as regras do jogo político-partidário levam a esta bipolarização entre os que já foram protagonistas da eleição de 2020. E parece não haver outra saída.
E porquê? No campo democrático Joe Biden (nascido em 20 de Novembro de 1942) terá no momento da eleição 82 anos, sendo, se eleito, na posse, o mais velho Presidente dos Estados-Unidos de sempre. Além disso tem mostrado, e até por isso foi tratado com benevolência nos tribunais, não estar talvez no pleno uso das suas faculdades cognitivas, com repetidas gaffes de percepção e conversação. Mas o facto é que, pelo lugar que ocupa desertificou outros concorrentes na área do partido democrático.
O único que apareceu até hoje ali foi Robert F. Kennedy Jr., um dos 11 filhos do Senador e Procurador-Geral dos Estados-Unidos Robert F. Kennedy, irmão do Presidente J. F. Kennedy que foi assassinado em Dallas, em Novembro de 1963. Robert foi também assassinado, em Los Angeles, em 6 de Junho de 1968, durante a campanha eleitoral. O autor do homicídio foi o terrorista palestiniano, Sirhan B. Sirhan. Robert Kennedy Jr. tornou-se conhecido pelas suas preocupações ambientalistas e posições anti-vacina por ocasião da epidemia COVID-19. Inicialmente parecia ir concorrer como democrata e pelo Partido Democrata, mas perante as pressões da candidatura oficial Biden, abandonou o partido e vai concorrer como independente.
Deste modo Biden ficou sozinho no campo dos democratas e teve resultados esmagadores a seu favor nas primárias da Supertuesday em 16 Estados. Também aconteceu isso nos republicanos com Trump, com a única oposição de Nikki Haley, antiga embaixadora americana nas Nações Unidas na Administração Trump, depois dos resultados na Supertuesday, abandonou a corrida, sem contudo, por enquanto, endossar Trump.
No seu discurso sobre o Estado da União, em 7 de Março, Biden procurou apresentar-se como salvador da Democracia, na América, na Europa e no mundo, retratando Putin como o novo Hitler e ele mesmo, Biden, como um novo F. D. Roosevelt. Mas, quanto à Ucrânia garantiu que “não há soldados americanos na Ucrânia” e que está decidido a que tudo assim continue. Em termos de política interna, insistiu na Agenda liberal dos costumes, na restauração da decisão Roe vs Wade, a liberalização do aborto, posta em causa pelo actual Supremo Tribunal de Justiça.
Escreveu um crítico, que Biden falou evocando presidentes democratas do século XX, como Franklin D. Roosevelt, John F. Kennedy e Bill Clinton, procurando dessa forma salvar o Partido Democrata do século XXI.
Mas tem problemas dentro do seu próprio partido: a ala esquerda do Partido e os muçulmanos americanos (uma comunidade de 3.500 000 pessoas) constituíram uma linha pró-palestiniana que contesta a política pró-Israel da Administração. E Biden sente-se entalado entre esta minoria e uma maioria dos democratas que continua inteiramente pró-Israel. Como a maioria dos Republicanos.
Para alguns críticos, o discurso do Presidente foi uma verdadeira declaração de guerra aos inimigos internos e externos; em primeiro lugar e acima de todos a Donald Trump, o seu putativo adversário em Novembro; seguiram-se o Partido Republicano e o Supremo Tribunal de Justiça. Biden foi agressivo com os juízes que assistiam, impávidos, à sessão. Dias antes, a 4 de Março, o colectivo judicial tinha anulado por unanimidade a decisão do Supremo Tribunal do Colorado, que proibia Trump de figurar nas Primárias daquele Estado, considerando-o impedido de exercer cargos públicos por ter incitado o ataque ao Capitólio em Janeiro de 2021. A decisão do Supremo foi por unanimidade, o que é muito significativo, já que, segundo os alinhamentos políticos há seis juízes conservadores e três progressistas.
Assim, Trump ficou qualificado para a Supertuesday que, no campo republicano, venceu por grande margem. Embora os dois campos estejam, à primeira vista, numa hostilidade radical, sobretudo nas agendas de costumes – onde Biden, embora irlandês e católico, parece apoiante ou refém da Agenda woke em matéria de aborto, eutanásia e costumes, e Trump, apesar do seu passado de “liberal chick nova-iorquino”, endossou a Agenda conservadora dos seus eleitores evangélicos e católicos conservadores. Na Agenda internacional, estas divergências extremam-se: Biden manteve a linha anti chinesa de Trump e o seu proteccionismo, segundo a Foreign Policy, acaba por ser uma adaptação do “America First” do seu adversário. Também ambos se mostram empenhados na defesa de Taiwan.
Já quanto à NATO e às questões climáticas, os dois divergem: Trump promete ser duro com os aliados que não cumpram com as obrigações contributivas para a Defesa ( deixou cair a história ou anedota de que teria dito a um líder de um país importante que até sugeriria aos russos que o invadissem – uma graça pesada muito explorada nos media pelos seus opositores.
Quanto aos temas da emergência climática, o candidato republicano mostra-se mais céptico quanto aos riscos imediatos do aquecimento global. De qualquer modo, tudo indica que vai ser uma campanha, de parte a parte, pela negativa, cada um dos candidatos procurando ser o escolhido, diabolizando o opositor. O que não se pode dizer seja muito pedagógico.

