Hoje e há 50 anos

No Commodity Markets Outlook de 30 de Outubro passado, o Banco Mundial dedicou a atenção ao conflito no Médio Oriente e aos riscos do alargamento regional dos confrontos. Neste relatório, o Banco evocou a situação, meio século atrás, quando em retaliação pelas posições ocidentais em relação à Guerra do Yon Kippur, a OPEP declarou um embargo às exportações de petróleo para os Estados Unidos e para os países vistos como apoiantes de Israel: Japão, Canadá, Reino Undo, Holanda, mais Portugal, Rodésia e África do Sul foram sancionados.

Embora a situação da economia mundial seja hoje melhor que nos anos 70 do século passado, os analistas do Banco Mundial fazem um exercício sobre o que podem ser os efeitos no preço do crude, de reduções de produção: considerando as interrupções “pequena”, “média” e “grande”. Na altura, em poucos meses, os preços do petróleo bruto passaram de 3 dólares/barril para 12. Agora, considerando a modalidade “small disruption” (para um corte na produção entre 500 mil e dois milhões de barris/dia), o correspondente aumento de preço seria entre 3% e 13%, projectando-se os preços entre 93 e 102 US Dólares/barril. Já num cenário de “medium disruption”, a produção poderá ser cortada aos níveis mínimos e máximos de 3 e 5 milhões de barris/dia, o que significaria aumentos dos preços do barril entre 21% e 35%, com os preços a elevarem-se respectivamente para 109 e 121 US Dólares.

Finalmente, no caso limite de “large disruption”, cortes de produção entre seis e oito milhões de barris/dia, aí os preços poderiam subir para 56% e 75% sobre os valores presentes, o que significaria pagar o barril de crude entre 140 e 157 Dólares.
O que peritos como Indermit Gill, Chief Economist do Banco Mundial e Senior Vice President for Development Economics, receiam é que a convergência dos “dois choques energéticos” – o da guerra da Ucrânia e o do conflito do Médio Oriente – acabem um a não parar e o outro a alargar-se, e tragam uma situação semelhante à dos anos 70.

E com as repercussões tradicionais: “Mas altos preços do petróleo, de forma constante, significam, inevitavelmente, mais altos preços de alimentação”. Falando a este respeito, Ayhan Kon, Deputy-Chief Economist do Banco, lembrou que há um ano, no fim de 2022, já mais de 700 milhões de seres humanos, isto é, um décimo da população mundial, estavam subalimentados. Uma escalada dos conflitos só iria significar regionalmente e globalmente um agravamento da escassez de bens alimentares e uma alta dos preços.
Temos de reconhecer que, colhendo as lições de há 50 anos, a economia mundial tem hoje – e tem-no mostrado – uma maior capacidade de absorver as más notícias económicas e os seus efeitos a nível nacional e global.

De qualquer modo, os observadores sublinham que estas consequências não são iguais para todos os Estados. E que os Estados da periferia, como os países da África subsaariana, têm de ter maior cuidado no que diz respeito à segurança alimentar das populações.
A produção mundial foi, em Setembro deste ano, de 101,6 milhões de barris/dia. O ataque do Hamas em 7 de Outubro e a Resposta de Israel em Gaza provocaram até agora subidas que nada têm a ver com as de há 50 anos. E apesar de todos os riscos, não parece que os Estados da região vão intervir militar e directamente na guerra.

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