Aproxima-se o mais importante congresso do Partido Comunista Chinês (PCC) dos últimos 30 anos, depois do pós-maoísmo, pondo-se em questão aclamar um líder para um terceiro mandato à frente do Partido e do Estado.
Embora alguns analistas admitam a hipótese de, entre a velha guarda do Partido, composta pelos que se retiraram das direcções de Jiang Zemin e Hu Jintao depois de cumpridos os dois mandatos, haver alguma resistência à pretensão de Xi Jinping de se transformar numa espécie de líder supremo e perpétuo, repetindo o exemplo de Mao Tse Tung, a verdade é que, para a maioria dos sinólogos ocidentais, Xi conseguirá o que quer.
Assim sendo, Xi terá também de enfrentar alguns sérios desafios. Além da questão de Taiwan, que, perante o que aconteceu em Hong Kong e Macau, parece afastada, em termos de opinião popular, de se decidir pela reunificação, a República Popular da China está perante um elenco de desafios económicos muito sérios.
As notícias sobre o crescimento não são famosas: no segundo trimestre deste ano de 2022, o PNB chinês cresceu 0,4%, muito abaixo das expectativas dos analistas da Reuters, que esperavam 1%. Isto apesar de algumas melhorias nas vendas ao público. As severas medidas de confinamento anti-Covid continuam a ser apontadas como responsáveis por esta baixa performance. Também o desemprego, que nas trinta maiores cidades baixou para 5,8%, subiu para 20% entre os jovens (16-24 anos).
O discurso oficial, confirmado pelo Departamento de Estatística, salienta o facto de a inflação chinesa ser muito inferior à da Europa e dos Estados Unidos, referindo também que a persistência da Covid e das consequentes medidas de isolamento, por exemplo em Xangai, contribuíram para a quebra da cadeia de distribuição, mas que, no mês de Junho, Xangai e Pequim estavam a recuperar. Também a quarentena para os estrangeiros passou, no fim de Junho, para sete dias em hotel.
O modelo chinês de desenvolvimento, uma espécie de capitalismo de direcção central, mudou muito na última década, desde a transição do poder de Hu Jintao para Xi Jiping. Nos últimos anos de Hu Jintao a economia da RPC crescia a uma média de 10% ao ano, os empresários, sobretudo dos sectores do imobiliários e tecnologias, tinham rédea solta – e a corrupção e a poluição eram grandes.
Quando visitou a Universidade de Renmin, em Pequim, em Abril, Xi falou de algumas coisas que muitos pensavam arrumadas nos anais da História, lembrando a professores e estudantes que todos deviam “continuar a promover a modernização do Marxismo” e que a pesquisa nas ciências sociais deveria assumir “ características chinesas”.
Este regresso da ideologia socialista tem sido acompanhado por recomendações do PCC para controlar “a anárquica expansão do capital”, enquanto o poder político aperta o controlo sobre a Internet. Oficialmente, a economia chinesa é uma “economia socialista de mercado”.
O Presidente Xi tem explicitado, em termos teóricos, alguma recuperação da teoria marxista clássica, ao dizer, por exemplo, que “as análises de Marx e Engels das contradições da sociedade capitalista não estão ultrapassadas”; como também não esté ultrapassada a “concepção materialista histórica” que diz que “o capitalismo está destinado a morrer e o socialismo destinado a vencer”.
Sob o impacto das crises sucessivas – da Covid, que Pequim combateu com um rigor radical e agora da guerra e suas consequências sobre a economia mundial – a tendência em Pequim (sempre condicionada pela prioridade da questão de Taiwan) parece ser de um maior controlo pelo Estado e pelo Partido da economia e da sociedade chinesa. A vitória de Xi Jiping confirmará esta tendência.

