O potencial (des)conhecido da pedra portuguesa

O que exporta Portugal? Arriscamos dizer, que numa abordagem simples, de rua, alheia ao rigor estatístico, o cidadão comum tenderia a referir as máquinas e os aparelhos, a metalurgia e a metalomecânica, o agroalimentar, os têxteis, a madeira ou a cortiça. Por maior aproximação ao tema, ou simplesmente fazendo eco do que aqui e ali a imprensa vai fazendo passar, as respostas não estariam longe da verdade.

 

São, com efeito, alguns dos setores-chave e que vêm integrando os lugares cimeiros dos produtos mais exportados por Portugal ao longo dos anos. A eles, também nós temos feito referência em espaço desta edição, numa escolha propositada, justificada pela relevância que assumem na e para a internacionalização da economia portuguesa.

Mas existem outros, e entre eles está a “pedra portuguesa”. Porém, arriscamos novamente dizer, que talvez esta já não surgisse tão rapidamente entre as respostas daquele mesmo cidadão comum. Importa por isso esclarecer desde já: não só o cluster da pedra natural tem um peso crescente na economia do país, como tem uma posição de destaque a nível mundial.

 

São cerca de 2.500 empresas a operar num setor que cujo volume de negócios se conta na ordem dos mil milhões, mais de 400 milhões gerados em mercados externos, pela mão de mais de 900 exportadoras. Na maioria, pequenas e médias empresas de base familiar, cuja atividade é desenvolvida principalmente a nível regional, empregando mais de 16 mil pessoas. O setor tem uma relevância acrescida no PIB, pela baixa incorporação de matéria-prima importada.

 

No plano internacional a realidade é ainda mais expressiva.

O mercado mundial da pedra é bastante heterogéneo, mas é possível afirmar, de um modo geral, que a China, a Índia, a Turquia e o Brasil são os maiores players no domínio da produção. Na Europa, o destaque vai para a Itália, Espanha e Portugal, surgindo depois a Grécia e a França, num claro domínio dos países mediterrâneos.

Historicamente, Portugal vem integrando o top 10 dos principais produtores e exportadores de pedra natural, mais recentemente pedra para fins ornamentais (e já não apenas industriais), ocupando actualmente o 7º lugar a nível mundial e o 3º a nível europeu. No caso dos calcários processados é, inclusive, líder mundial, com uma quota de 2,6% do comércio mundial (dados provisórios, 2020). Mas existem outros números que confirmam potencial exportador do sector:

  • Tratando-se de ardósia, o nosso país surge no 5º lugar no ranking dos exportadores, com quase 5% da quota do mercado mundial;
  • Mármores e calcário em bloco - 6º maior exportador, com uma cota de 4,1%.

 

Borba, Vila Viçosa e Estremoz, Pero Pinheiro, Santarém, Porto de Mós, Alcobaça e Ourém, Monção, Vila Pouca, Pedras Salgadas, Ponte de Lima, Penafiel, Moimenta e Pinhel, de norte a sul do país, apesar da reduzida dimensão territorial, Portugal extrai mármores, alabrasto, calcários, granitos, xisto, basalto e uma multiplicidade de variações rochosas, parte das quais exporta, ou em bloco, ou em produto transformado/processado, oferecendo a quem compra centenas de alternativas estéticas, passíveis de serem utilizadas numa multiplicidade de aplicações.

 

Das rodovias, passeios públicos, praças, pracetas, pavimentos e jardins, aos interiores ou à fachada de edifícios, passando pelo mobiliário, aplicações domésticas, suporte de iluminação, escultura etc., a pedra portuguesa atravessa fronteiras e chega aos quatro cantos do mundo (cerca de 140 mercados).

 

No seu conjunto, a Europa, liderada pela França (22%), continua a ser o nosso principal mercado de destino, mas a China ocupa uma posição de destaque entre os nossos principais clientes (2º lugar, 19%), assim como os EUA (6º lugar, 5%) ou a Arábia Saudita (7º lugar, 3%). Espanha (10%), Alemanha (6%), Reino Unido (5%), Países Baixos, Suécia e Bélgica (com valores próximos dos 2%), compõem os restantes lugares do top 10.

Assim foi o ranking em 2019, ano recorde para as exportações portuguesas de pedra natural, dando seguimento à trajectória de crescimento consecutivo dos cinco anos anteriores, a uma média de 6% ao ano que culminou com o valor das exportações a atingir a barreira dos EUR 427 milhões naquele ano. Um marco histórico desde que há registos.

 

Reviravolta 2020

Porém, revertendo o caminho que vinha sendo seguido, a pandemia de Covid-19 arrastou as contas do comércio externo do setor para o vermelho. Foram menos 410 mil toneladas exportadas, equivalentes a EUR 60 milhões, o que significou uma quebra de 14% nas exportações.

Mas atestanto o potencial da pedra portuguesa, os últimos dados disponíveis (junho) revelam que, com o primeiro quadrimestre de 2021 fechado, as exportações estão a recuperar, por comparação com o mesmo período de 2020, crescendo tanto em volume de negócio (+18,8%) como em quantidades exportadas (+27%). Em termos absolutos, isto significa mais EUR 21,5 milhões e mais 146 mil toneladas.

No entanto, importa sublinhar que, apesar deste crescimento altamente encorajador, a valorização média por tonelada exportada apresenta preços abaixo dos que foram praticados no ano passado. Por outras palavras, Portugal está a vender mais, mas mais barato, tal como alertado pela ASSIMAGRA, Associação que representa a Indústria Portuguesa dos Recursos Minerais.

Há um longo caminho a percorrer até que o setor volte aos níveis atingidos em 2019 e, mais ainda, para superar aqueles valores. A internacionalização – um dos fatores mais críticos para o sucesso que o setor vem apresentando – é um processo de médio e longo prazo e é necessário continuar a potenciá-lo, para que Portugal reforce ainda mais o seu posicionamento nos vários rankings internacionais do setor.

Mas a reviravolta de 2020 trouxe, simultaneamente, novos desafios e oportunidades, comprovando a constante necessidade de apostar em inovação, I&D, em novas ferramentas de comunicação, na transição digital e, sobretudo, em segmentos mais valorizados dentro do cluster, abrindo-se, até por aqui, novas oportunidades em termos de alargamento dos mercados de exportação.

 

Reviravolta 2021, 2022, 2023….

A aposta em segmentos de maior valor acrescentado não é, em si, uma novidade. Ela é, aliás, um dos fatores por detrás da transformação pela qual o cluster vem passando nos últimos anos. Ao contrário do que acontecia no passado, hoje, a maioria (quase 70%) das exportações já provêm de produtos processados e altamente processados, em detrimento do produto em bloco, de menor valor acrescentado.

Uma alteração do perfil exportador tornada possível pela inovação tecnológica que permitiu, desde logo, desenvolver novas formas de trabalhar a pedra, costumizá-la, apostando na especialização e na produção por medida e personalizada, trabalhando em conjunto com a arquitetura e o design. Assim deverá continuar a ser, por forma a conquistar novos consumidores e novos mercados. Porque, no final, e como já tantas vezes escrevemos, o objectivo é vender!

Mas nem tudo são boas notícias e há sérios obstáculos a ultrapassar, reviravoltas a dar para alcançar aquele desígnio. Há que trabalhar novas formas de apresentar a pedra portuguesa e as suas funcionalidades, nomeadamente através do marketing digital. As limitações trazidas pela pandemia apenas vieram comprovar que assim é. São muitas as carências que exigem estratégias adequadas de promoção e divulgação internacional no sentido de evidenciar as vantagens competitivas da oferta portuguesa e ajudar a que o seu potencial seja percebido pelos mercados. Existem carências ao nível de informação especializada e estruturada sobre o comércio internacional para o setor, à qual as empresas possam recorrer nos seus processos de internacionalização, entre muitos outros obstáculos identificados por quem nele opera. Por ora, ficamo-nos por aqui, relembrando a uns, apresentando a outros, o potencial de um cluster que julgamos subvalorizado ou até mesmo desconhecido por muitos – o potencial da pedra portuguesa.

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