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Artigo de Bruno Bobone, Presidente da CCIP, na sua rúbrica semanal no Diário de Notícias.

Dizia António Costa Silva, no seu Plano de Recuperação, que Portugal sempre cresceu quando assumiu a sua vocação atlântica e definhou quando se virou para a Europa. E propunha que desta vez Portugal aproveite as duas vertentes para crescer melhor.

António Costa está completamente focado na sua ligação europeia, até pela responsabilidade que assumiu com a presidência portuguesa da União Europeia, mas esqueceu outra vertente, aquela que dá outra capacidade de crescimento e desenvolvimento, que é a atlântica.

Em todo o Projeto de Recuperação e Resiliência não há qualquer referência a um grande investimento no mar nem qualquer referência a um maior envolvimento com os países africanos de língua oficial portuguesa.

Num momento em que todo o mundo já compreendeu que o futuro terá o seu foco de maior desenvolvimento na exploração dos recursos marítimos e no desenvolvimento do continente africano nós, Portugal, que temos extraordinários recursos marítimos e que somos, ainda, referência nas relações com os países africanos, de língua oficial portuguesa e outros, decidimos que não temos qualquer interesse em investir em qualquer destas áreas, que nos poderia tornar relevantes no mundo em que vivemos.

Portugal candidatou-se a ficar com a responsabilidade de gerir uma extensão do oceano Atlântico que nos permitirá obter uma dimensão territorial superior ao subcontinente indiano. Vários governos investiram neste processo e asseguraram ter as competências para o realizar.

E agora, num momento de grande oportunidade de fazer os investimentos necessários a beneficiar deste projeto, apenas nos esquecemos de o incluir na nossa estratégia!

Quanto ao continente africano, e ao mesmo tempo em que assistimos a um avanço enorme da influência chinesa, nós, sem qualquer nota de preocupação, deixamos abandonados aqueles países, que não só têm sofrido com crises económicas fortes como estão a precisar do nosso apoio em face da pandemia.

E, claro, se não ocupamos o nosso lugar, outros o ocuparão. Assistimos, nesta semana, a uma movimentação por parte do governo espanhol para ganhar posição em África garantindo todo o apoio às suas empresas e assegurando a capacidade de lhes dar a influência para ganharem esses mercados.

E Portugal, o que tem feito? O nosso governo pensa de forma diferente: por questões de ideologia, que não lhe permitem reconhecer a importância de apoiar as empresas portuguesas, num momento em que o Conselho Económico da CPLP faz uma reunião com todos os seus membros e com representantes dos respetivos governos, em alguns casos com a participação do próprio Presidente da República, não envia qualquer representante seu a esta reunião, manifestando o claro desinteresse por este projeto, que é tão-só uma das maiores oportunidades para o crescimento da nossa economia e das nossas empresas.

Gerir momentos é uma qualidade essencial para sobreviver hoje, mas não haverá país se não existir uma visão e uma estratégia para o futuro. E as nossas empresas e os portugueses não merecem essas vistas curtas que destruirão tudo aquilo que foram eles a construir.

As vistas curtas das nossas elites não podem deitar a perder tudo aquilo que os portugueses criaram.

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