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Mais do que o primeiro-ministro, interessa o candidato às legislativas

Na quarta-feira, dia 4 de Setembro, recebi na Câmara de Comércio e Indústria o primeiro-ministro e secretário-geral do Partido Socialista, António Costa. Este foi o segundo debate de um ciclo que a CCIP está a realizar com as eleições legislativas como pano de fundo. O nosso objetivo é claro: ouvir, questionar e debater o que os protagonistas políticos querem para o nosso país. Numa altura onde as incertezas políticas e económicas marcam a agenda e as preocupações dos portugueses, estas conversas centram-se, essencialmente, no futuro de Portugal.

Por isso mesmo, mais do que o papel de António Costa como primeiro-ministro – que, com toda a sua habilidade política, conseguiu colocar o Bloco de Esquerda a dizer que tem um programa social-democrata – interessava-me ouvir António Costa como candidato do PS às próximas legislativas.

Esta conversa permitiu retirar vários pontos de interesse daquilo que Costa pretende para o país e sobre a visão que o atual primeiro-ministro tem sobre alguns temas importantes para a economia nacional:

  • Não há nacionalizações no programa eleitoral do PS: ainda que tenha como “parceiros” de governação o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, tão adeptos das nacionalizações das grandes empresas portuguesas, Costa garantiu que essa questão não se coloca nem se vai colocar. Especificamente, o primeiro-ministro rejeita a nacionalização da Galp e da EDP. Defendeu também a posição que o Estado detém na TAP, assegurando que os sócios privados estão satisfeitos com esta situação. Estas declarações parecem responder afirmativamente ao repto que eu próprio lhe lancei, quando pedi que tenha as empresas no seu coração, ainda que este esteja à sua esquerda;
  • Salário mínimo não vai aumentar: esta é outra das grandes preocupações dos empresários, numa altura em que o salário mínimo está já muito próximo ao salário médio nacional. E é outro dos temas preferenciais da esquerda que apoia o atual Governo. António Costa foi também taxativo nesta matéria, afirmando que será difícil existirem mais aumentos, defendendo, como alternativa, medidas para valorizar os rendimentos dos mais jovens. O desafio é, tal como o próprio explicou, chegar a um acordo em concertação social;
  • O que talvez os empresários presentes no debate menos gostaram de ouvir foi o que Costa pensa sobre as taxas de IRC: o primeiro-ministro discordou que a redução destas taxas possa servir como incentivo ao investimento privado, defendendo que aquilo que mais impulsiona as empresas é manter as taxas de juro baixas;
  • O papel de Mário Centeno: o ministro das Finanças é porventura a estrela maior deste Governo. Apesar dos elogios, que lhe valeram o cargo de presidente do Eurogrupo, é também a ele que atríbuem grande parte da responsabilidade pelas cativações que contribuíram para a degradação de alguns dos serviços públicos. Aqui, Costa tentou desvalorizar o papel do responsável pela pasta das Finanças, afirmando que este é “hipervalorizado”;
  • Conjuntura política: estas eleições ameaçam provocar uma profunda transformação política. A grande incógnita neste momento é qual o puzzle parlamentar que sairá das legislativas caso o PS não obtenha a maioria absoluta: mantém-se a geringonça ou Costa vai “procurar” sustentação noutro lado? O primeiro-ministro tem sido recorrentemente quesionado sobre esta matéria e, na conversa na CCIP, esforçou-se para mostrar que, pelo menos, não quer ser confundido com os seus parceiros à esquerda, nomeadamente com o Bloco de Esquerda. Como vimos anteriormente, rejeita algumas das principais bandeiras da esquerda e garantiu que o “programa do PS não é o do Bloco de Esquerda”.

Esta foi mais uma conversa construtiva e esclarecedora. Só assim, debatendo, questionando e ouvindo, poderemos chegar às urnas informados. As nossas preocupações não podem ficar ao sabor do vento. É preciso expô-las a quem nos governa e exigir explicações. Na terça-feira, dia 10 de Setembro, será a vez de Rui Rio, presidente do PSD, a sentar-se ao meu lado para mais um debate. A postura vai ser a mesma: questionar, escutar e pensar o futuro de Portugal.

 

Bruno Bobone

Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa

 

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