“IT’S THE ECONOMY…”

Estamos nos 100 dias da guerra começada a 28 de Fevereiro com o ataque surpresa dos Estados Unidos e de Israel ao Irão. Nesses dias haverá que subtrair, nas contas da guerra, os dias a partir do "cessar-fogo" declarado por Trump e que, com quebras de parte a parte, tem sido prolongado e se tem mantido. Ou seja, houve quarenta dias de guerra e, depois, passou-se a uma fase de intermitência, com a mediação paquistanesa a tentar a difícil tarefa de levar as partes a um acordo.

Só que, esta guerra insere-se num quadro geopolítico que claramente mudou: a ordem liberal internacional, que por cerca de trinta anos, sucedeu à Guerra Fria, acabou, entre a invasão da Ucrânia pela Rússia e a reeleição de Donald Trump. E foi — ou está a ser — substituída por uma nova ordem internacional, que é uma ordem de grandes e médias grandes potências.

As grandes são os EUA, a República Popular da China, a Federação Russa, a Índia. As médias altas são, entre outras, o Japão, o Brasil, a Alemanha, o Reino Unido, a França, a Itália, a Turquia, a Arábia Saudita, Israel e, por enquanto, o Irão.
Este conflito do Médio Oriente tem, como partes directas, na primeira linha, os Estados Unidos, Israel e o Irão. Mas, por proximidade territorial e política, os Estados do Golfo Pérsico, acabam por ser arrastados, até porque sofrem directamente, na sua economia e nas suas cidades, o impacto directo da guerra.

E vem depois esse impacto no resto do mundo pela alta dos preços do crude e do gás natural; mas também pela quebra da oferta dos fertilizantes, com impacto rápido no preço da alimentação. Os dirigentes da clerocracia iraniana e dos Guardas Revolucionários perceberam muito bem esse facto e, usam-no como chantagem sobre a economia mundial e também — o que é mais importante, senão decisivo —sobre a economia americana e os eleitores americanos.

Trump, que às vezes fala de mais, mas que não tem nada de estúpido, nem é tão "errático" como o imaginam, percebeu que tem de resolver rapidamente a questão e sair do buraco da guerra. Segundo uma sondagem no Politico de Sexta-Feira, 29 de Maio, 53% dos americanos consideram que o custo de vida é o seu principal problema e queixam-se do modo como a economia está a ser conduzida. Isto agrava-se na altura em que, depois do Memorial Day na América se inicia a chamada Driving Season, um tempo em que os americanos e americanas se metem no carro e se põem a circular antevendo o verão. Só que, encher o depósito com gasolina premium, em Fevereiro, custava 50 Dólares (43 Euros) e agora custa 80 Dólares (69 Euros). Faz diferença, uma grande diferença. E volta à liça, o famoso "It's the Economy, Stupid!".

É mesmo a economia, e por causa da economia e das eleições mid-term em Novembro para o Senado e para a Câmara dos Representantes, a Administração tem de resolver rapidamente o problema da guerra do Médio Oriente, e sair dela.

O problema é que, o "inimigo" também sabe disso, e não parece, por isso, muito disposto a ceder. E aí conta com o apoio discreto, das "grandes potências" chinesa e russa, e também de alguns dos BRICS, sensíveis à Realpolitik dos interesses nacionais e contentes por pôr em causa a hegemonia americana.

Este é um tempo de risco, entre o caos da ordem que acabou e o desenhar de uma nova ordem em que os interesses dos grandes e a projecção da sua força vão ser as regras.

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