Davos evoca, para os leitores de Thomas Mann, o cenário do seu grande romance A Montanha Mágica, de 1924. Mas mais de meio século a esta parte, com as reuniões do think tank que tem o mesmo nome, as reminiscências literárias foram relegadas para segundo plano. E Davos tornou-se sobretudo o palco da elite político-económica mundial que ali se reúne. Pode dizer-se que o fundador do Forum, Klaus Schwab, teve a ideia do grupo em 1971. E não sendo muito importante, inventou um lugar onde os importantes deste mundo se juntassem com uma série de importantes menos importantes que pagam para ver in loco os líderes e os quase líderes dos Estados e do poder financeiro.
Reflectindo a mudança do mundo, este ano, ao contrário de outros que tinham primado pela convergência das ideias e dos discursos, foi teatro de fortes confrontações verbais, mas que reflectem o fundo das grandes mudanças e abalos geopolíticos.
Esse clima de conflito teve a ver com Donald Trump, o político mais importante de Davos e do mundo, também porque é o líder da nação mais poderosa. Trump introduziu no discurso internacional uma linguagem directa, expressiva, pouco diplomática, às vezes mesmo perturbadora. E não é só a linguagem, é também a substância das suas propostas.
Este ano foi assim. Durante a vigência, de 1992 a 2022, da Ordem Liberal Internacional, os Estados Unidos, em Administrações democráticas – Clinton, Obama, Biden – e republicanas – George W. Bush – sucederam-se as guerras, dos Balcãs ao Médio Oriente, em nome das intervenções norte-americanas.
Trump terminou com as guerras ideológicas. Quando os interesses dos Estados Unidos estão em causa, como no Irão ou na Venezuela, há intervenções cirúrgicas, rápidas, sem resposta e sem baixas americanas. Do mesmo modo, depois de insistir no interesse dos Estados Unidos em ocupar a Gronelândia, Trump acabou por sossegar o auditório, garantindo que não vai usar da força. Sempre provocador, interpelou Macron por usar óculos escuros e referiu que ele tinha subido o preço dos medicamentos em França.
Quem respondeu a Trump foi o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, um super tecnocrata e banqueiro internacional que já foi governador do Banco do Canadá de 2008 a 2013 , e do Banco de Inglaterra de 2013 a 2020. Carney tem tripla cidadania – canadiana, irlandesa e inglesa.
No seu discurso, Carney atacou Trump e acusou as grandes potências de terem dado o golpe de misericórdia na ordem internacional liberal. Trump respondeu-lhe também em Davos dizendo – “Canada lives because of the United States”.
Em Otava, no regresso de Davos, Carney afirmou que depois de Davos tivera uma conversa telefónica com Trump em que tinham discutido afavelmente vários temas, entre os quais a Ucrânia e a Gronelândia, mas também o pacto de livre-comércio USMCA (United States Mexico Canada), que será revisto em breve.
Por sua vez, o Secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, foi muito crítico de Carney por causa do acordo comercial com a China. Trump ameaçou o Canadá com tarifas de 100% se o governo de Otava permitir as mercadorias chinesas chegarem sem direitos aos Estados Unidos.
Se Trump, em retaliação ao acordo China-Canadá, dificultar a exportação de automóveis canadianos para os Estados Unidos como ameaçou, os empresários canadianos acham que seria o desastre e, neste sentido, alguns criticaram abertamente o primeiro-ministro Carney.
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