Um dos grandes problemas actuais da Europa e da União Europeia é o choque entre determinados projectos ideológicos da Comissão, como por exemplo a chamada Agenda Verde, e os interesses concretos dos países, das indústrias dos países, e das populações dos países-membros.
Um dos casos em que isto se está a ver muito concretamente e que está a levar, neste momento, a uma forte reacção, é a questão da decisão da Comissão Europeia de proibir, a partir de 2035, o fabrico, na Europa, de automóveis que não sejam eléctricos; consequentemente, portanto, acabar com os automóveis a gasolina ou gasóleo e passar integralmente para a construção de viaturas eléctricas. Isto está a causar uma profunda crise na indústria automóvel, sobretudo na alemã, que tem marcas históricas, como a Audi, a Mercedes, a BMW, a Volkswagen, marcas tradicionais muito importantes, e que emprega na Alemanha cerca de 800 mil pessoas. Sobretudo em regiões como o Baden-Württemberg, a Baviera e a Baixa Saxónia, a indústria automóvel é uma indústria fundamental, sendo um dos grandes sucessos industriais da Alemanha; mas está a ser duramente atingida por essas metas da agenda verde europeia, e pelo objectivo ideológico da Comissão, objectivo politicamente correcto, que está a suscitar vivas reacções entre os industriais e os trabalhadores do ramo automóvel.
Outro país também muito atingido por estas medidas, e também importantíssimo na tradição e na indústria automóvel, é a Itália; a ponto de, em reacção, quer o chanceler alemão, Mertz, quer a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, terem decidido, juntos, dizer não a essas medidas de Bruxelas. Houve já uma reunião da ministra alemã da Economia e da Energia, Catarina Reitsch, e do ministro italiano das Empresas, Adolfo Urso, em que foi elaborada, em conjunto, uma carta pedindo à Comissão que mude imediatamente de política em relação ao sector automóvel.
Esta tomada de decisão política faz com que a questão, que até agora era uma questão mais de economia industrial e de opções desse tipo, passe, a partir de agora, a ser uma questão política. Mertz deu o sinal de que não era possível o Green Deal europeu e que, portanto, não quer que a Alemanha seja um dos países que apoiam esta proibição — ele usa a mesma expressão, esta “má interdição”. Portanto juntam-se dois países europeus muito importantes, dos mais importantes da União, numa política conjunta de reacção a essa proibição de construção de veículos tradicionais a partir de 1 de Janeiro de 2035, ou seja, menos de 10 anos a partir de agora.
Mas isto já vinha da reacção dos industriais, por exemplo, Oliver Zips, que é o presidente da BMW, e Ola Kalénius, que é o presidente da Mercedes-Benz – ambos tinham protestado contra as decisões de Bruxelas, pedindo mais realismo e que tivessem atenção, nas suas políticas, às realidades industriais e geopolíticas, quando avançam para este tipo de metas e decisões.
Ao contrário, o presidente Macron, que ao princípio parecia também ter tido alguma sensibilidade a este problema, acabou por voltar atrás, talvez para ser fiel a umas declarações que tinha feito em Outubro de 2022, em que dizia “nós assumimos este objectivo de 100% de veículos eléctricos em 2035, é necessário para manter os nossos objectivos climáticos, é uma oportunidade para reindustrializar o nosso país”. Não se percebe como é que ele vai reindustrializar, atingindo uma indústria fundamental europeia. Estes três países, a Alemanha, a Itália e a França, tinham razões de fundo para combater a Agenda Verde mas a França, pelos vistos, saiu deste conjunto.
De facto, os problemas têm vindo a crescer, com números cada vez maiores de despedimentos e fechos de fábricas; numa perspectiva realista, alguém diz que a Europa é o “idiota útil” destas campanhas climatéricas, porque, com esta devoção, vai perdendo postos de trabalho; parece que somos os únicos que levamos a sério toda esta campanha, que é uma campanha muito ideológica, com os seus lobbies e, já no campo da paranoia, com os fanáticos climáticos, como aquelas duas mulheres que em Madrid, recentemente, procuraram destruir um quadro famoso do desembarque de Colombo nos Estados Unidos; Têm acontecido, por toda a Europa, esses ataques aos museus por parte dos “climáticos” ou “climatéricos” mais empedernidos e mais furibundos. Aqui não se trata da destruição de quadros, mas da destruição de uma importantíssima indústria europeia, a indústria automóvel alemã que é o maior empregador e exportador do país, com uma receita em 2023 de 564 mil milhões de Euros, emprego directo de 780 000 pessoas, e 30,3 mil milhões de Euros de despesa em pesquisa e desenvolvimento. Não há dúvida de que é de nos perguntarmos se não é necessário introduzir algum senso comum nestas políticas.
E parece que sim, porque é evidente que, se a Alemanha e a Itália se mexerem, vai ser muito difícil a Bruxelas e a Ursula von der Leyen impor estas medidas.
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