O novo domínio chinês no e-Commerce

Ao longo dos últimos anos vem-se desenhando um novo paradigma no comércio internacional. Muito falado atualmente, o aumento do comércio eletrónico não é uma novidade. Só em Portugal, de 2017 para 2018, no universo B2C (Business to Consumer), esse aumento foi de 17%, atingindo 5 mil milhões de euros. No ano seguinte, em 2019, seria ultrapassada a barreira dos 6 mil milhões de euros. Juntando o universo B2B (Business to Business) aquele valor passa a rondar os 96 mil milhões. Uma mudança significativa, que se tornou ainda mais evidente no ano que agora terminou, alavancada pelas implicações e consequências da pandemia de Covid-19. Não havendo ainda dados oficiais, as estimativas apontam para um novo crescimento superior a 110 mil milhões de euros (dos quais 8 mil milhões de euros B2C). Estimativas reveladoras de um verdadeiro boost, ao refletirem metas que se esperava serem atingidas apenas em finais de 2022. Os números são ainda mais expressivos no plano internacional. Com algumas discrepâncias de economia para economia, mercado para mercado, uma coisa parece certa: numas e noutras, com mais ou menos pulsar, o e-commerce veio para dominar.

Sobretudo nas economias mais desenvolvidas, mas, de um modo geral, um pouco por todo o mundo, a crise pandémica veio dar um enorme impulso à tendência de digitalização. Mudaram-se comportamentos, regras e hábitos sociais, e as compras on-line registaram um crescimento exponencial. A crise ajudou o mercado a amadurecer.

É certo que numa primeira fase se registou uma quebra de vendas, devido ao sentimento generalizado de medo que levou a uma diminuição do consumo. Mas uma vez ultrapassado esse período inicial e com a necessária adaptação a um “novo normal”, as vendas voltaram a subir, maioritariamente as provenientes do comércio eletrónico. É fácil perceber porquê.

Perante a disseminação da ameaça e a rapidez com que ocorria, o levantamento de barreiras físicas há muito, senão esquecidas, pelo menos secundarizadas, foi visto como primeira grande medida de salvação. Paralelamente, para muitos segmentos da sociedade, por forma a ultrapassar aquelas barreiras, a tecnologia passou de mera curiosidade a instrumento essencial do dia-a-dia. Assim foi para consumidores, produtores/empresas, instituições e governos. Acreditamos que assim continuará a ser em contexto pós-pandémico.

São vários os indicadores que apontam para uma crescente digitalização do mundo, das economias, dos negócios, do consumo, e Portugal não é exceção. Também no nosso país se regista uma cada vez mais forte penetração da internet (com valores a começarem a aproximar-se da média europeia), um crescimento do número de compradores online e, simultaneamente, um aumento do valor, volume e frequência das suas compras. Se a isto juntarmos estimativas de analistas da área económica indiciando que a percentagem de consumidores disponíveis para utilizar os mecanismos digitais tende a duplicar ao longo desta próxima década – com base no aumento das gerações “nativas digitais” –, torna-se altamente expectável que o consumo privado ganhe cada vez mais expressão nos canais digitais.

No plano das empresas a realidade não é muito diferente. São cada vez mais as que reforçam a sua presença no mundo digital, ou as que nele se lançam pela primeira vez. Umas detendo domínio próprio, um ou vários sites, outras optando por estarem presentes em Marketplaces – uma abordagem considerada particularmente interessante, sobretudo para as micro e pequenas empresas (a maioria do tecido empresarial português), ajudando, até, à sua maior internacionalização.

Não se defende com isto que estejamos perante o fim das interações pessoais nem das compras físicas, mas as conclusões de vários estudos vão no sentido de defender que a pandemia funcionou, efetivamente, como forte catalisador da digitalização, da adoção de novas tendências e que algumas das rotinas adquiridas durante o período de confinamento poder-se-ão ter tornado permanentes. Uma realidade que justificará (e já justifica) um forte investimento em infraestruturas digitais. E esta não é uma mera especulação; é um cenário evidente, desde logo se olharmos o comportamento em bolsa de gigantes tecnológicos norte-americanos que, em contexto de isolamento e de quebra generalizada de vendas, se mostraram significativamente mais resilientes em termos operacionais e de crescimento de lucros, por comparação com demais empresas de sectores mais tradicionais da economia.

Este investimento em infraestruturas digitais tenderá a ser transversal a toda a economia. Mas a par do mundo laboral onde o teletrabalho se tornou a nova regra, o comércio foi indubitavelmente dos primeiros domínios onde o aumento do fenómeno digital ganhou nova expressão. Assim foi aos olhos de todos. O que nem todos parecem ver, é quem domina este novo domínio. E aqui o destaque não vai para os gigantes tecnológicos norte-americanos, mas sim para um grupo de empresas chinesas, que à boleia da pandemia vêm consolidando o seu domínio no domínio do e-commerce internacional.

Os números falam por si. Avaliado em 3.535 mil milhões de USD (retail e-commerce), 58% do comércio eletrónico mundial (retail e-commerce) está concentrado em apenas 6 empresas: Taobao.com (15%); TMall.com (14%); Amazon (13%); JD.com (9%); Pinduoduo (4%); eBay (3%). Deste grupo, 4 são empresas chinesas que respondem por mais de 40% dos fluxos comerciais online.

A dimensão do mercado interno chinês, os altos níveis de penetração da internet entre a sua população (sendo este, note-se, um indicador ainda bastante aquém do seu verdadeiro potencial) e a propensão desta para as compras on-line, são algumas das razões que justificam o domínio chinês do panorama do comércio eletrónico internacional.

Mas mais interessante, será notar o domínio chinês no universo dos Marketplaces - plataformas on-line de comércio, “super-hipermercados” digitais aglomerando diferentes marcas, onde e-buyers e e-sellers de todo o mundo se encontram à distância de um click, lugar virtual onde acontecem mais de 50% das trocas online. E aqui não podemos deixar de olhar para o gigante Alibaba que, só por via das empresas Taobao e TMall, surge como líder incontestável da (commercial) world wide web.

Uma abordagem mais completa a este tema implicaria olhar para diferentes segmentos de mercado, marketplaces B2C e B2B, nichos específicos de mercado, compra e venda de produtos vs serviços, controlo de plataformas de pagamento, plataformas concorrentes etc. Por ora, fica o alerta. Numa época marcada pela ascensão do fenómeno digital, visível, desde logo, num novo paradigma do comércio internacional, o domínio do e-commerce avizinha-se como mais um domínio chinês à escala mundial.

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