CHINA vs EUA: O wake up call Europeu

No final do passado mês de Junho, os dirigentes do G-20 - grupo formado por representantes das 19 maiores economias do mundo, mais a União Europeia como actor de per si - reuniram-se em Osaka, Japão, para analisar os grandes desafios económicos internacionais, com o “comércio mundial” e “transformação digital” - nomeadamente a forma como a utilização dos dados e meta-dados podem impactar o curso do crescimento económico e do comércio internacional, podendo ser manipulados por quem os domina a favor das respectivas economias e empresas - a ocuparem posição central na agenda das conversações.

Uma cimeira onde, num contexto de intensificação das tensões comerciais e geopolíticas, a União Europeia (UE) voltou a enfatizar a necessidade de defender o multilateralismo e práticas comerciais baseadas em regras negociadas e consensualmente aceites entre os parceiros internacionais, alertando para o perigo de o mundo se transformar numa perigosa arena onde os mais fortes impõem as suas condições aos mais fracos, obedecendo a agendas nacionalistas e ímpetos proteccionistas que chegam a desafiar as regras do próprio bom senso.

A deterioração das relações entre a China e os EUA no contexto da guerra comercial entre os dois países e o seu reflexo na evolução da economia e comércio mundiais estava, certamente, por detrás deste wake up call da Europa, cujas economias, ou pelo menos algumas, já foram atingidas pelos efeitos colaterais da disputa comercial entre as duas maiores economias do globo.

O presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente norte-americano, Donald Trump, reuniram-se à margem da cimeira, procurando fazer avançar o diálogo e progredir nas negociações visando um acordo comercial. Foi visível, por parte do líder chinês, uma tentativa de diminuição do nível de formalidade que caracteriza a diplomacia chinesa, chegando mesmo a referir-se ao presidente Trump como “meu amigo”. No entanto, o analista mais atento facilmente perceberá que, por detrás desta atitude cordial, pouco ou nada mudará na posição de fundo chinesa no que toca à defesa dos seus interesses estratégicos nos planos económico e comercial.

Perante este cenário, importará perceber qual poderá ser a resposta americana, pois qualquer que ela seja, a evolução das relações EUA-China no quadro de uma guerra comercial que se arrasta desde 2017, terá repercussões à escala mundial, dado o enorme peso sistémico dos actores em questão. Apesar de a China representar apenas 7% das exportações norte -americanas, a verdade é que a preponderância destes dois países nas diferentes cadeias de produção e distribuição é de tal ordem, que a mínima escalada de tensões, por norma, provoca ondas de choque nos mercados financeiros e inevitavelmente uma diminuição do comércio internacional.

 

A proposta chinesa

A base da proposta chinesa consiste em aceitar comprar mais produtos dos e aos EUA, num esforço para ajudar a reduzir o gigantesco déficit comercial norte-americano, a que acresce o reafirmar do compromisso chinês de longa data para com a protecção legal dos direitos de propriedade intelectual. No entanto, a China é muito clara quando esclarece que, no caso de empresas estrangeiras decidirem, voluntariamente, partilhar informação de mercado (i.e. “segredos comerciais”) com empresas chinesas para desta forma conseguirem mais facilmente obter acesso ao mercado chinês - prática que os Estados Unidos caracterizam como “transferência coerciva” - a China nada fará para impedir que assim aconteça.

A China reitera igualmente o compromisso de abertura do seu mercado a empresas e bancos estrangeiros, permanecendo, porém, irredutível quanto ao ritmo com que o fará. Posição que, naturalmente, não gera grande confiança por parte de empresas e investidores estrangeiros e, por maioria de razão, investidores americanos.

No plano cambial, o yuan chinês (unidade de conta) permanecerá indexado a um cabaz de moedas estrangeiras, que não será “esvaziado” artificialmente, até porque a China não vê qualquer benefício numa guerra cambial.

Faz igualmente parte da proposta chinesa reduzir a propaganda sobre o programa Made in China 2025, que apela ao domínio chinês de tecnologias modernas, como robótica e inteligência artificial. Tem-no feito, de facto, mas o país em nada está disposto a reduzir nem os projectos de pesquisa e desenvolvimento que formam a substância daquele programa, nem o ritmo a que têm avançado. Uma clara ameaça aos interesses americanos. Note-se que a guerra comercial a que se tem vindo a assistir é apenas a ponta do icebergue de uma guerra mais ampla que, no limite, desemboca na procura pela supremacia tecnológica. Não foi, aliás, por acaso, que o tema da “transformação digital” ocupou também papel de destaque na agenda da cimeira do G-20 inicialmente referida.

Entre outros pontos que poderíamos continuar a elencar, o essencial será perceber que, até hoje, a China não se mostrou disposta a alterar em nada do que é estrutural do seu programa de desenvolvimento, pese embora algumas concessões que vá fazendo aqui e ali dando respostas algo superficiais às exigências americanas.

 

A reacção norte-americana

Entre tweets e comentários menos convencionais nos palcos da política internacional, mais cedo ou mais tarde, Donald Trump terá de decidir se aceita a oferta chinesa, em cima da mesa desde 2017 - e que ao fim de dois anos, no seu essencial, se mantém inalterada -, pondo fim ao conflito comercial, ou, se continuará a anunciar medidas proteccionistas retaliatórias que tenderão a escalar tensões, contribuindo para que as economias dos EUA e da China se afastem ainda mais em direcção a uma crescente dissociação.

No plano de um discurso que muito apela a parte do seu eleitorado, Trump insiste em repetir que, de uma forma ou de outra, os EUA sairão sempre vencedores deste conflito comercial. Mas especialistas em assuntos chineses e, principalmente, em política externa chinesa, não hesitam em afirmar que, ou o presidente Trump faz bluff, ou desconhece em absoluto a cultura política chinesa, principalmente a visão de fundo e os objectivos estratégicos do seu actual líder.

O aumento de tarifas sobre aço e o alumínio, que chegaram a visar as importações da UE, foi um dos episódios protagonizados por Donald Trump, numa guerra comercial onde as investidas do Presidente se multiplicam, com a consequente resposta por parte dos visados, nomeadamente da China. Num dos episódios mais recentes (Agosto), Pequim anunciou, numa acção retaliatória em relação ao último aumento de tarifas decretado pela Administração Americana, a subida das taxas a aplicar a bens americanos no valor de USD 75 mil milhões, com destaque para o aumento de tarifas sobre a importação de soja (+5%), petróleo (5%) e automóveis (25%).

Os EUA, por intermédio do seu presidente, não perdeu tempo na resposta e logo anunciou uma nova subida de tarifas sobre produtos chineses avaliados em USD 250 mil milhões de 25% para 30%; subida esta a ser seguida por uma nova ronda de tarifas no valor de USD 300 mil milhões de bens chineses de 10% para 15%. Tarifas que entraram em vigor no início de Setembro, outras entrarão a partir de 15 de Dezembro.

A escala de tensões nesta disputa comercial é evidente, o clima de incerta também, os mercados bolsistas e as restantes economias estão expectantes. Mas é necessário não perder a objectividade sob pena de deixarmos de fora da equação factores que poderão ser, senão determinantes, pelo menos influenciadores do futuro curso dos acontecimentos.

Quase 4 anos passados da chegada de Trump ao poder, grande parte do mundo continua a ter dificuldade em encontrar terreno comum para dialogar com o líder norte-americano e com a sua Administração. No caso concreto, os EUA encaram a China como uma das maiores ameaças aos seus interesses e, como tal, os consensos poderão ser mais difíceis de alcançar. Mas o difícil não significa impossível.

É importante percebermos se a orientação do Presidente Trump é um necessariamente um obstáculo ao comércio e ao crescimento económico global ou se, por outro lado, caminhos diferentes podem, ainda assim, chegar a bom porto.

Um exemplo muito claro disto vê-se a propósito do Acordo Climático de Paris, não ratificado pelos EUA mas que, em rigor, tem sido muito mais difícil de cumprir por economias como a Alemanha, por exemplo, do que pelos EUA que acaba por vir a registar uma evolução no seu “mix de energia” muito mais concordante com os objectivos do acordo, contrariamente ao que muitos inicialmente esperariam. Não cabendo na presente análise, existem números que o comprovam e que reforçam a ideia de que caminhos diferentes podem levar ao mesmo objectivo, independentemente da retórica política para agradar a audiências.

Um outro exemplo muito claro, já na vertente comercial, vê-se na forma como foi resolvida a disputa com o Canadá e o México, num processo de clara afirmação perante o mundo da preponderância do poder americano, com Donald Trump a sair vencedor aos olhos dos mais desatentos, que talvez não se tenham dado conta que o processo culminou não no abandonou do bloco regional, mas sim na reformulação do NAFTA com alteração mínimas, mantendo-se, no essencial, o mesmo acordo. Mas os EUA saíram vencedores! Sairão também do conflito com a China. Assim será aos olhos de muitos.

 

O que esperar então?

Apesar do crescendo de tensões, tanto Washington como Pequim continuam a mostrar abertura para voltar à mesa das negociações e é provável que isso aconteça em breve. A enorme interdependência económica entre a China e os EUA - não se desenvolvendo aqui a questão do controlo da dívida pública americana por parte dos chineses - levará inevitavelmente a uma nova fase de consciencialização, com uma gradual aproximação (e não dissociação) das partes. Sabemos que o caminho vai ter altos e baixos, vais ser volátil e sujeito a contratempos, mas acordos específicos e temporais não devem ser subestimados, principalmente com a aproximação do ano eleitoral nos EUA.

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