Em África - ir além de Angola e Moçambique

O anúncio foi oficial, feito no início do ano pelo Primeiro-Ministro António Costa, por ocasião da V Cimeira dos Países do Sul da União Europeia que teve lugar no Chipre: África ocupará um lugar central durante a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia. De acordo com o PM português, o “tema fundamental” da presidência portuguesa da UE será o das relações com o continente africano. Fruto da proximidade geográfica e do relacionamento histórico, África sempre foi, e parece continuar a ser, pelo menos no plano do discurso, um pilar fundamental na política externa portuguesa, e assim, uma vez mais, é conferido a África “prioridade” na agenda da próxima presidência portuguesa da UE, que decorrerá no primeiro semestre de 2021.

Na mesma linha, meses mais tarde, a Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros, Teresa Ribeiro, referindo-se ao objectivo de uma maior aproximação entre os dois continentes, e à necessidade de criar as condições e os mecanismos necessários (ou potenciar os já existentes) para que África possa materializar todo o seu potencial com a ajuda da Europa, acrescentou, sublinhando, a importância do investimento privado em terras africanas. O sector privado, as empresas, os investidores particulares a serem finalmente chamados ao processo.

Um processo de aproximação que é naturalmente complexo, vasto, que abrange uma diversidades de vertentes e que exigirá uma intricada rede de acções em múltiplas áreas: da cooperação política, à governação económica, passando pela ajuda ao desenvolvimento, saúde, educação, crescimento, criação de emprego, questões migratórias e securitárias, mas também, nunca deixando de passar pelo aprofundamento das relações económicas e, consequentemente comerciais, com os vários mercados africanos.

Neste ponto, e na vertente especificamente económica e comercial, aquela que na presente análise mais nos interessará, perguntamo-nos como aplicar isto à realidade das empresas portuguesas investidoras ou exportadoras para mercados africanos? A pergunta exige-se porque parece ser grande a distância entre o que se apregoa (com razão e sentido estratégico) e a realidade dos factos. Se não vejamos.

A verdade é que, ao pensar estratégias de internacionalização orientadas para o mercado africano (tido como um todo), quer na vertente do investimento, quer na vertente das exportações, o empresário português, normalmente, continua a pensar primordialmente em Angola e Moçambique. É fácil perceber porquê. Existe uma relação histórica, a língua é a mesma, e estas continuam a ser as maiores economias (em termos de PIB, recursos, potenciais consumidores) entre as restantes da África lusófona: Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

Mas numa altura em que as autoridades políticas portuguesas alertam, nas mais importantes instâncias internacionais, para a importância do continente no seu todo, as empresas portuguesas não poderão ficar para trás e perder oportunidades que outros certamente aproveitarão. África é um continente composto por 54 países, muitos deles em processo de transição política, transformações económicas e sociais, tendentes a uma maior abertura ao exterior, encetando importantes esforços no sentido da dinamização do sector privado e da atracção de investimento estrangeiro.

Aos mais desatentos, poderá passar despercebido o ritmo de crescimento de mercados como a Etiópia, a Costa do Marfim, o Ruanda, a Guiné, a Tanzânia, o Senegal, o Djibuti, ou mesmo o Mali (apenas para mencionar alguns), que ao longo dos últimos 5 anos aprestaram médias de crescimento muito perto (caso do Mali), ou mesmo acima (todos os outros mencionados) dos 6%, com a Etiópia a apresentar uma média anual de crescimento superior a 9%. No entanto, e erradamente, são muitos os que continuam a associar à Etiópia uma imagem do passado, totalmente desfasada da realidade actual deste mercado e do seu ambiente de negócios.

Se analisarmos os indicadores que sustentam previsões de crescimento para os próximos 5 anos, muitos ficarão surpreendidos ao verem mercados como a Mauritânia, o Níger, o Benin, o Uganda, o Quénia, o Burkina Faso ou o Togo entre o grupo das economias com maior potencial de desenvolvimento em todo o continente. No entanto, estes continuam a ser considerados mercados muito distantes (não necessariamente geograficamente) não sendo tão facilmente considerados pelos empresário portugueses nas suas decisões de investimento ou de diversificação de mercados de destino das suas exportações.
Dados do INE relativos aos maiores mercados de destino das exportações portuguesas para África em 2018 já revelam a importância, por exemplo, de mercados como Marrocos, Argélia, Tunísia e Egipto. Note-se, todos eles geograficamente mais próximos de Lisboa. Não será coincidência.

Mas existem outros com potencial a ser explorado. É o caso da África do Sul, um país em processo de transformação onde há hoje uma classe média cada vez mais sofisticada e onde em breve surgirão importantes concursos no sector das energias renováveis e para a exploração mineira. O caso do Congo que surge como 3º maior país com terras aráveis de enorme potencial agrícola. A Namíbia, a Nigéria, uma série de países costeiros com grande potencial de exploração de recursos piscatórios e frutos do mar com grande procura, por exemplo, nos mercados asiáticos, entre tantos outros mercados africanos que, pese embora riscos, vulnerabilidades e entraves de natureza diversa - tal como em muitos outros mercados nas mais diferentes geografias - apresentam actualmente um grande dinamismo empresarial e boas perspectivas de crescimento económico.

O governo português parece estar atento a esta realidade. Parece apostado em colocá-la na agenda europeia. Restará saber que distância separará as palavras dos actos e como conseguirão posicionar-se as empresas portuguesas no que poderá ser uma nova corrida a África. Uma corrida que não será fácil, onde a competição se avizinha dura, mas no âmbito da qual, para as empresas portuguesas, o primeiro passo será perceber que em África há que ir além de Angola e Moçambique. Vamos ver se assim será.

 

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