Espanha, França, Alemanha e Reino Unido - Entre oportunidades e desafios

Na passada edição de Março abordámos o tema da centralidade dos nossos tradicionais parceiros comerciais - e da “importância do regresso a um passado que nunca deixou de ser presente” - significando isso voltarmos a olhar para os nossos velhos parceiros europeus, e tomar consciência da necessidade de os manter como eixo vital das nossas exportações. Tal, sem com isso significar, deixar de continuar a apostar na diversificação geográfica dos nossos mercados de destino para lá das fronteiras europeias.

Referimo-nos, então, a mercados como a Espanha - historicamente o nosso mais importante cliente e fornecedor - França, Alemanha e Reino Unido que, entre alguns outros mercados europeus, foram o principal sustentáculo da subida das exportações registada em 2018, ano que acabaria por ficar marcado por uma importante quebra das nossas vendas precisamente para os mercados extra-europeus. Apresentámos números que atestam que assim foi e que justificam, por isso, que voltemos ao papel central do Velho Continente para o comércio internacional português.

Ficaram por analisar as principais oportunidades e desafios com os quais as empresas portuguesas poderão ser confrontadas nestes mercados em 2019. É isso que nos propomos agora fazer.

Espanha - Com um valor total de exportações estimado em 14.675,9 milhões de euros, o que representou 25,3% do total das nossas exportações de bens no último ano, Espanha continua a liderar o ranking dos nossos clientes, evidenciando oportunidades de negócio que devem continuar a ser desenvolvidas e exploradas. Trata-se de um mercado atractivo, com mais de 46 milhões de consumidores com significativo poder de compra. A estes, podem ser somados cerca de 80 milhões de turistas que se deslocam ao país actualmente e que também eles são potenciais consumidores de produtos portugueses.

Naturalmente que a gravidade com que a crise de 2008 afectou a economia espanhola - que logo em 2009 registou taxa de crescimento negativo de -3,6% e nos quatro anos seguintes continuou a apresentar uma média negativa de crescimento (-1,4%) - representou um enorme desafio para as empresas portuguesas exportadoras para este mercado. Mas desde então a economia tem vindo a recuperar, revelando a sua resiliência e dinamismo, apresentando taxas de crescimento em torno dos 2,5% e os 3,7%, o que é notável para uma economia que esteve à beira do colapso financeiro. Esta trajectória de crescimento assentou, até um determinado nível, no aumento da procura e consumo internos, o que é particularmente positivo para Portugal se considerarmos que parte do consumo é alimentado por bens e serviços comprados ao exterior.

Mas a competição é forte - o que por si só já representa um desafio - e apesar da muito longa relação comercial com o país, será um erro estratégico darmos Espanha como um mercado garantido. É por isso necessário, em 2019 e nos anos seguintes, continuar a dar a conhecer a oferta nacional, promovendo fornecedores e produtos portugueses. As oportunidades existem e Portugal tem vantagens competitivas em relação a outros potenciais parceiros comerciais.

A par de oportunidades de parcerias empresariais fruto de uma cada vez maior aproximação entre os dois mercados, em matéria de exportações deverão ser destacadas oportunidades: no sector dos têxteis/ confecção, do vestuário e do calçado - a moda é claramente um sector com grande potencial de crescimento neste mercado, com o “private label” português a dar cartas; do mobiliário e decoração; no sector alimentar (com destaque para os produtos agrícolas e das pescas) e das bebidas; materiais de construção; no domínio da biotecnologia; no sector da saúde e dos produtos farmacêuticos; TICs; no sector automóvel; aeroespacial e aeronáutico; das energias renováveis; ambiente, entre outros. Os novos desafios que a Indústria 4.0 e a Agenda Digital colocam podem também eles ser potenciadores de oportunidades a explorar.

Mas os desafios existem e vão fazer-se notar. É por isso fundamental definir com clareza as linhas-mestras da abordagem a seguir - uma abordagem diferenciadora, que seja adequada às características de um mercado maduro, competitivo - com uma forte concorrência tanto de empresas estrangeiras como das próprias empresas locais - e extremamente heterogéneo. Este último, um dos maiores desafios a superar.

Espanha não apresenta um mercado único e homogéneo. Pelo contrário, é altamente diversificado por força da existência de diversas regiões autónomas, com as suas próprias características diferenciadoras, preferências, diferentes hábitos de comércio e de consumo, disparidades ao nível da capacidade de compra e até mesmo diferentes culturas que podem afectar o modo de fazer negócios. Um conjunto de factores que devem ser equacionados desde logo na tomada de decisão de exportar ou não exportar, mas também na concepção da estratégia a aplicar na comercialização e na escolha dos próprios produtos, que podem ser adequados a umas regiões e não necessariamente a outras.

Existem depois outros desafios internos que poderão afectar o ambiente de negócios em 2019 com impacto para as empresas exportadoras nomeadamente, o ambiente político e a incerteza gerada em torno de uma grande fragmentação parlamentar e o clima de tensão entre Madrid e a Catalunha, cuja questão soberanista ainda não está totalmente resolvida e que, por isso, é igualmente potenciadora de instabilidade política.

França - 3ª maior economia europeia e 2ª da zona euro, 67 milhões de potenciais consumidores, um PIB per/capita superior à média da UE e um dos maiores destinos turísticos de todo o mundo, são alguns dos trunfos que a França apresenta. Para Portugal, com exportações estimadas num total de 7.345,1 milhões de euros, respondendo por quase 13% do total das nossas vendas de bens ao exterior, França surge como o nosso segundo mais importante mercado consumidor. A sua relevância é, por isso, indiscutível com oportunidades de negócio em quase todos os sectores (bens e serviços). Tanto nos mais tradicionais, como em sectores industriais de ponta. De muitos que poderiam ser identificados, destacamos os seguintes pelo dinamismo que têm revelado: o sector da moda; a fileira casa, com especial destaque para o mobiliário de gama alta e de luxo, de design moderno e inovador; os produtos agro-alimentares, nomeadamente em nichos considerados gourmet; materiais de construção; papel; cortiça; máquinas e equipamentos; o sector automóvel e da aeronáutica; a área das tecnologias de informação, comunicação e electrónica (TICE); biotecnologia e ambiente.

Mas nem tudo são boas notícias. As estimativas para 2019 apontam para um arrefecimento da economia francesa, com um crescimento mais moderado (1,29%) do que o registado nos dois últimos anos: 1,5% em 2018 e 2,2% em 2017. Assim se espera que seja por força de factores externos e internos, do fraco aumento do consumo, da retracção do investimento das famílias e um crescimento também mais modesto do investimento por parte das empresas.

Desafio igualmente importante é a actual situação gerada a partir do chamado movimento dos “coletes amarelos”, fonte de enorme tensão social, com registo de episódios de violência e que já paralisou alguns sectores da economia e até mesmo o país. Emmanuel Macron e o seu Governo pretendem continuar a implementar, ao longo do primeiro semestre deste ano, um conjunto de reformas económicas, abrangendo a área fiscal, a função pública, o próprio funcionamento das instituições, novas regras de apoio à aposentação, ao desemprego entre muitas outras medidas tendentes a dar resposta às revindicações, procurando garantir o regresso à normalidade política e social. Estudos revelam que, até à data, a maior parte das intenções de investimento no país não foram condicionadas pelo actual quadro de agitação. Ainda assim, a situação está longe de estar resolvida e persistem desafios e factores de risco.

Alemanha - A mais rica economia da Europa, o maior mercado da UE, com mais de 82 milhões de consumidores e cujo poder de compra, já elevado, revela tendência para crescer nos próximos anos, surge como o 3º maior cliente de Portugal, com uma cota de 11,5% das nossas exportações de bens, o que equivale a 6.651,8 milhões de euros. De acordo com alguns estudos, trata-se do mercado mais atractivo para o investimento estrangeiro em toda a Europa.

Altamente competitivo e muito maduro, à semelhança do mercado francês, também o alemão apresenta oportunidades num vasto leque de sectores abertos à importação e ao investimento. Também aqui de destacar oportunidades de negócios tratando-se do vestuário e calçado (onde se abrem cada vez mais nichos tratando-se de vestuário e calçado técnico de alta qualidade), produtos do sector têxtil, mobiliário de luxo (tanto para casas como para hotéis), no sector agro-alimentar (principalmente tratando-se de produtos de alta qualidade com certificação biológica) e no sector dos vinhos, que têm cada vez mais lugar à mesa dos alemães. Também a indústria de ponta e alta tecnologia se mostra cada vez mais receptiva a marcas portuguesas de bens de equipamento, componentes automóvel e TICE.

O país tem apostado em áreas consideradas estratégicas e prioritárias como o clima, a sustentabilidade ambiental, a saúde, a nutrição, a mobilidade, a segurança e a comunicação. Um conjunto de sectores com capacidade de resposta em termos de produção e exportação por parte de muitas empresas portuguesas, que aqui poderão encontrar oportunidades de negócio a explorar.

Uma outra tendência que vem ganhando expressão é protagonizada pelos chamados millennials que manifestam um comportamento não tanto assente na posse de bens, quanto na fruição de serviços. Uma tendência à qual as empresas portuguesas também poderão dar resposta, alargando-se também por aqui o leque de oportunidades de negócio a considerar.

Mas não são poucos os desafios que se apresentam. Este é um mercado líder em inovação e, perante a revolução da Indústria 4.0 que na Alemanha ganha particular expressão, as empresas portuguesas que a ela conseguirem aderir, poderão aspirar a um patamar de igualdade com parceiros alemães. Mas este não será um desafio fácil de superar.

Por outro lado, este é um mercado cujo consumidor se caracteriza por ser extraordinariamente exigente, por valorizar flexibilidade e rapidez na entrega do produto/serviço, que compra cada vez mais online, que tem particular apetência por produtos de qualidade, diferenciados, “tailor made”, produtos de forte componente tecnológica e de vanguarda. É perante este quadro, altamente competitivo e exigente, que as empresas portuguesas têm que conseguir posicionar-se, apostando na diferenciação perante concorrentes logística e culturalmente mais próximos.

Mas talvez o maior desafio que se apresenta às empresas seja de outra natureza. A estabilidade que caracterizou os sucessivos governos Merkel poderá estar próximo do fim. Tendo anunciado que não se recandidatará à liderança da CDU, Merkel nada disse sobre uma eventual renúncia ao cargo de chanceler, cujo mandato termina apenas em 2021. Mas não há garantias de que este mandato seja levado até ao fim. A incerteza quanto ao futuro político do país - cada vez mais fragmentado e onde ganham expressão forças de extrema-direita e forças de extrema-esquerda - e ao que será uma Alemanha pós-Merkel terá profundas consequências para Portugal e para as empresas portuguesas. Bastará para isso olhar para a estrutura da nossa economia, das nossas exportações, para o número de empresas a exportar para o mercado alemão, para os investimentos que a Alemanha tem em Portugal, para a dimensão da comunidade portuguesa no país, para começarmos a vislumbrar os contornos dos desafios que poderão vir pela frente.

Reino Unido - A segunda maior economia da UE rendeu a Portugal, em 2018, mais de 3.677,4 milhões de euros em exportações (bens), fazendo do Reino Unido o nosso 4º maior cliente, e respondendo por 6,3% do total das nossas exportações. Mas o processo de saída da UE e a indefinição quanto ao seu desfecho (que no limite ainda poderá traduzir-se na manutenção do RU no bloco comunitário), nomeadamente no que respeita ao acordo que irá ditar os termos das relações entre as parte no futuro, desde logo as relações comerciais, tem gerado instabilidade e um enorme clima de incerteza, prejudicial não apenas à economia britânica, mas também às empresas com investimentos no país e às empresas que para lá exportam.

São 66 milhões de consumidores na mira das empresas portuguesas que, neste quadro de indefinição, continuam a explorar as oportunidades que este mercado proporciona, nomeadamente no contexto do National Productivity Investment Fund - que tem por objectivo financiar investimento de alto valor acrescentado em áreas-chave para reforçar a produtividade da economia no longo prazo, a saber: I&D; infraestruturas de transporte e comunicação digital e habitação. Esta tentativa de captação de investimento estrangeiro é uma das áreas que apresenta maior potencial para as empresas portuguesas.

Mas as dúvidas são muitas e pesam no momento de decidir investir ou não investir, exportar ou não exportar. No imediato, i.e., em 2019, o grande desafio passa por compreender como é possível tirar partido do Brexit, e perceber as oportunidades que uma economia com tendência para a estagnação mas altamente criativa pode trazer às empresas portuguesas. Desafio igualmente importante será manter as quotas de mercado que Portugal actualmente detém, enquanto não se define com clareza o modelo de saída do país da União. Tema que justificaria uma reflexão mais profunda numa análise que já vai longa.

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