BREXIT afasta exportadoras portuguesas

Depois dos mais recentes avanços no draft do acordo técnico entre Bruxelas e Londres no âmbito do “Brexit”, e numa altura em que se preparam as negociações das bases para a futura parceria entre o Reino Unido e a União Europeia (UE), importa voltar a olhar para as possíveis consequências desta saída para o comércio, para as empresas e investidores portugueses.

Sendo ainda difícil quantificar com exactidão os custos associados, uma coisa é certa: a saída do Reino Unido da UE comporta um risco forte para a economia portuguesa. Assim é, em virtude da expectável redução dos fluxos de investimento directo estrangeiro direccionados ao nosso país (entre -0,5% e -1,9%), das remessas dos nossos emigrantes (entre -0,8% e -3,2%) e, de forma mais significativa, das exportações nacionais para o mercado britânico (entre -1,1% e -4,5%) que, no limite, poderão traduzir-se em perdas potenciais no total das exportações nacionais na ordem dos -15% a -26%, consoante os termos da relação comercial que for estabelecida. Os dados são avançados pela Confederação Empresarial de Portugal.

A poucos meses da saída oficial do país do bloco comunitário, prevista para Março de 2019, alguns efeitos já se fazem sentir. No último ano, o Reino Unido havia figurado como 4º maior mercado de destino das exportações portuguesas de bens, representando 6,6% no total das vendas ao exterior, e o 1º tratando-se de exportações de serviços. Dados relativos a 2018 (comércio de bens) mostram que até Agosto o país já tinha passado de 4º para 5º lugar (sendo ultrapassado pelos EUA) e que, só em Agosto, as vendas para o mercado britânico tinham caído -12%, recuando para 240 milhões de euros, i.e., menos 33 milhões do que igual mês em 2017. Vestuário e metalurgia foram os que mais perderam terreno.

Responsáveis da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal falam em reduções de cerca de 25 milhões em exportações, o que representa perdas de cota de 5% ao ano, levando o Reino Unido a descer de 3º para 4º lugar entre os maiores clientes de Portugal neste sector. As perspectivas não são muito optimistas, prevendo-se uma a continuação desta tendência de quebra, pelo menos, enquanto o clima de incerteza se mantiver.

Tratando-se da indústria metalúrgica, a quebra do mercado britânico levou a que este sector, líder das exportações nacionais, ficasse em terreno negativo pela primeira vez desde Abril de 2017. O ano passado, as exportações com destino ao Reino Unido tinham subido 4%. Em Agosto desde ano recuaram -2% e este valor passa para -4,4% se considerarmos o conjunto do ano (Jan-Ago). É certo que Espanha (com uma cota de 23,6%), Alemanha (16%) e França (15%) continuam a ser mercados mais importantes. Mas como 4º maior destino dos nossos produtos metalúrgicos, com uma cota acima dos 8%, o Reino Unido permanece um cliente importante e, por isso, o impacto não deixará de ser significativo. Também aqui a indefinição é a maior preocupação das empresas, sendo suficiente para abrandar o ritmo das exportações.

Outros sectores afectados são (e serão) o dos produtos farmacêuticos, electrónicos e ópticos, o dos equipamentos eléctricos e o sector dos veículos automóveis.
Poder-se-á sempre afirmar que a mais recente evolução das exportações para o Reino Unido se enquadra numa linha mais geral de abrandamento das exportações nacionais que, em Agosto último, subiram apenas 2,6%, um valor manifestamente abaixo dos quase 14% registados em Julho. Mais ainda, que houve outros mercados que registaram quebras mais acentuadas como é o caso do Brasil (-44%) ou até mesmo da Alemanha (-12,2%). Os mais cépticos dirão mesmo que Portugal nem tão pouco será dos países mais afectados e que os impactos do Brexit serão mais fortemente sentidos noutros mercados.

Mas os números não mentem. Em 2017, o valor exportado pelas empresas portuguesas que destinaram pelo menos metade das suas exportações para terras de sua majestade caiu para 12,6% do total das vendas. No ano anterior (2016), aquele valor era de 15,6% e em 2015 situava-se nos 18,6%. Significa isto que tem se tem vindo a verificar uma efectiva redução do grau de exposição das empresas exportadoras ao mercado britânico desde o referendo de 2016 e, mais ainda, desde o início de um processo de negociações que agora entra numa fase decisiva.

Naturalmente que Portugal tem outras opções e as empresas portuguesas já deram provas - têm-no feito ao longo da última década - da sua capacidade para se reinventarem, reposicionarem e procurarem novos mercados e novos produtos com potencial exportador. No entanto, não deixará de ser igualmente decisivo para muitas delas perceber que este é um mercado a preservar. Portugal tem uma ligação privilegiada com o Reino Unido e é importante não perder nem elos nem clientes.

O país será sempre um parceiro comercial de grande importância e, mesmo que num primeiro momento se perca alguma cota de mercado, não devemos deixar de nos afirmar com produtos de maior valor acrescentado. E, talvez mais ainda, não devemos deixar de procurar oportunidades, mesmo num contexto que, à primeira vista, parece inibidor da nossa dinâmica exportadora. Essas oportunidades existem e estão à espera de ser exploradas. 

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