Artigo A sustentabilidade nas empresas portuguesas

No passado dia 3 de outubro de 2023, o Center for Responsible Business and Leadership da Universidade Católica apresentou o seu Relatório Anual do Observatório dos ODS sobre a sustentabilidade no setor empresarial português. O estudo incluiu a realização de questionários a 61 Grandes Empresas - das quais 54 são multinacionais - e a 108 Pequenas e Médias Empresas - das quais 101 são multinacionais.

 

Várias foram as conclusões retiradas no Relatório, sendo de destacar os seguintes aspetos:
i. Cerca de 97% das GEs e 87% das PME consideram que a sustentabilidade significa uma oportunidade de crescimento substancial para a competitividade dos seus negócios;
ii. O reporte corporativo de sustentabilidade aumentou, em geral, nas empresas portuguesas, sendo esse aumento notoriamente mais significativo nas GEs;
iii. Em particular, tornou-se evidente que as GEs estão bastante melhor preparadas para atuar na promoção da sustentabilidade e dos ODS em relação às PME;
iv. 67% das GEs considera estar preparada para o cumprimento da legislação que imporá o dever de reporte corporativo em matéria de sustentabilidade, sendo que apenas 7% das PME o afirma;
v. 82% das GEs criou ou mantém um departamento de sustentabilidade, sendo que apenas 9% das PME o pode afirmar;
vi. Todas as empresas declaram ter dificuldades em implementar os ODS, sobretudo devido à falta de conhecimentos para o efeito;
vii. Ainda assim, a maioria (cerca de 70%) das PME não fizeram nenhuma sessão de formação sobre o tema;

O que levou a equipa a concluir que “as empresas portuguesas estão numa trajetória ascendente, mas há muito a fazer”. Neste sentido, é necessário que a sua progressão no cumprimento destes objetivos seja cada vez mais ambiciosa e real.

Analisando especificamente algumas questões que foram colocadas às empresas objeto do estudo desenvolvido, é útil notar nas diferenças substanciais que distinguem o desempenho em matéria de sustentabilidade das GEs face às PME.

Estrutura empresarial. Das GEs objeto do estudo, a esmagadora maioria são sociedades anónimas (86,7%), sendo que, por sua vez, a maioria das PMEs analisadas é constituída por sociedades por quotas (60,2%) e empresas familiares (74,1%), sendo que, no caso das PMEs, o setor de atividade predominante é o de bens e serviços industriais (27,8%).

Sustentabilidade como benefício? A ideia de que a sustentabilidade se revela benéfica para os negócios é generalizada no panorama nacional.

Alterações implementadas. Metade das PME inquiridas considera que os seus negócios já tinham sofrido alterações devido a preocupações com a sustentabilidade, sendo que muitas destas encaram a sustentabilidade como “the way forward” e uma forma de se diferenciarem no mercado no futuro. Ainda assim é interessante verificar que 80% das GEs vão muito mais longe e asseguram que a sustentabilidade está já claramente incorporada nas suas operações, com ainda 68,8% destas a afirmar que o alinhamento com a sustentabilidade é já parte do ADN da empresa.

ESG. É interessante comparar os graus de importância que as GEs e as PME atribuem à sustentabilidade ambiental, social e económica. Para as PME, a vertente económica última continua a representar a dimensão mais importante, ao passo que, para as GEs, a sustentabilidade social passou a ser a mais relevante.

ODS. As empresas foram também questionadas acerca do acolhimento dos objetivos de desenvolvimento sustentável, tendo sido concluído que as PMEs apresentam níveis mais baixos de conhecimento destas matérias do que as GEs. Em ambos os grupos, o nível de conhecimento parece ter diminuído face às respostas dadas no primeiro ano do estudo, o que é interessante de analisar. Esta redução do conhecimento reportado poderá ser uma consequência de as empresas estarem, na verdade, mais conscientes deste tema e das suas inúmeras implicações, assumindo, também por isso, uma posição mais cautelosa face ao ano anterior no que toca a classificar-se como tendo elevado conhecimento sobre os ODS.

ODS em particular. O estudo pretendeu ainda averiguar quais os ODS com maior importância estratégica para as empresas. As PME, que no primeiro ano do estudo davam maior importância aos ODS sociais (1, 2, 3, 4 e 5), apontam agora para o 5 (igualdade de género), 7 (energias renováveis e acessíveis), 8 (trabalho digno e crescimento económico), 9 (indústria, inovação e infraestruturas) e 12 (produção e consumo sustentáveis) como os mais importantes, sendo estas escolhas curiosamente mais semelhantes às das GEs.

Formação e parcerias. Por outro lado, tanto a nível de formações sobre os ODS, como da existência de taskforces nas empresas especialmente dedicadas à sustentabilidade, é notório que as empresas inquiridas podem ainda francamente melhorar, ficando, contudo, as PMEs muito aquém das GEs. Por exemplo, 73,1% das PMEs refere não ter feito nenhuma formação sobre os ODS na empresa nos últimos dois anos. Esta é uma descoberta interessante do estudo, no sentido em que coloca à vista a necessidade de as empresas potenciarem o desenvolvimento das suas atividades em conjunto com a comunidade e parceiros estratégicos. Em termos de parcerias estabelecidas, as GEs apontam como principais parceiros as organizações sociais e internacionais e as universidades. Curiosamente, as PMEs apontam os clientes, os fornecedores e as organizações sociais.

Obrigações de reporte. Relativamente às novas obrigações de reporte estabelecidas na Diretiva sobre o Reporte de Sustentabilidade, que irão aplicar-se já em 2024 às GEs e em 2026 às PME cotadas, as empresas sentem-se moderadamente preparadas. Mais uma vez, as PME apresentam resultados piores, sendo que 60,2% destas empresas revela não conhecer as obrigações de reporte que lhes serão aplicáveis. Dois dos fatores identificados como obstáculos ao cumprimento destas obrigações são a falta de dados sobre como implementá-las na prática, bem como a complexidade na recolha destas informações.

Motivações. As principais motivações das PME para a adoção dos ODS prendem-se com a identificação de uma oportunidade de crescimento de negócio, mas também de uma forma de conseguirem uma vantagem competitiva e de aquisição de reputação no mercado. Mais uma vez se verifica que a sustentabilidade financeira continua a ser o elemento preponderante para as PME. Já as GEs parecem ter uma maior preocupação com o impacto na sociedade, encarando os ODS como um meio de participar na resolução de problemas sociais e ambientais.

Gaps. O estudo permitiu ainda concluir que, mesmo dando importância a cada dimensão da sustentabilidade e aos diferentes ODS, existe ainda um desequilíbrio muito relevante entre a importância que lhes é dada pelas empresas e o que é efetivamente levado a cabo para os colocar em prática, algo que se verifica tanto nas GEs como nas PME. O mesmo se passa com a importância que as empresas dão à incorporação dos ODS na sua estratégia e o seu nível de implementação na prática. Estes são os principais gaps que o estudo demonstrou existirem, pelo que se conclui que as empresas inquiridas já estão em grande medida conscientes da importância da sustentabilidade, nas suas diversas vertentes, e mais concretamente da necessidade de adotar os ODS. Contudo, a sua concretização na prática tem ainda um caminho pela frente, mais longo para as PME – que representam a grande maioria das empresas em Portugal – do que para as GEs. Nas vertentes da sustentabilidade, a discrepância maior prende-se com a importância dada à vertente ambiental e à sua implementação. Do mesmo modo, o maior gap entre a importância atribuída e a sua implementação na prática verifica-se nos ODS de cariz ambiental. Assim, é possível verificar que as empresas estão cada vez mais cientes da importância e necessidade de cuidar do ambiente. Outra conclusão interessante deste estudo é a de que a igualdade de género representa um gap francamente menor para as PME do que para as GEs, apesar de existente em ambos os casos.

Deste modo, tornou-se evidente que é generalizada a perceção empresarial de que o investimento na sustentabilidade é uma oportunidade significativa e de baixo risco para os negócios. É sobretudo de destacar a existência de uma evolução positiva face aos resultados do primeiro ano do estudo, estando as empresas, particularmente as GEs, mais comprometidas e alinhadas estrategicamente com os ODS. As PMEs, por seu turno, vão a caminho.

 

AUTORAS

Beatriz Albuquerque é doutoranda em Direito na NOVA School of Law, advogada na Vieira de Almeida & Associados e investigadora associada do NOVA Business, Human Rights and the Environment.
&
Maria Miguel Oliveira da Silva é doutoranda em Direito na NOVA School of Law, assistente convidada da NOVA School of Law, investigadora associada do NOVA Business, Human Rights and the Environment e investigadora do CEDIS e do NOVA Consumer Lab.

Saiba como fazer parte da rede da Câmara de Comércio

 

Torne-se nosso associado