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Artigo de Bruno Bobone, Presidente da CCIP, na sua rúbrica semanal no Diário de Notícias.

Dei-me conta nesta semana de que, para além da estirpe inglesa, da sul-africana, da brasileira, da indiana e da chinesa - que não se pode chamar assim -, há uma estirpe muito mais difícil de combater e dominar pela sua capacidade criativa.

É a estirpe portuguesa!

Ao contrário das restantes, esta estirpe tem características muito específicas e é muito sensível às regiões em que se instala.

Por exemplo, é, ao contrário de todas as outras, uma estirpe que começa o seu trabalho noturno cerca das 23h00, razão pela qual os nossos restaurantes têm de fechar as suas portas pelas 22h30, de modo que os clientes cheguem a casa em segurança antes que o vírus pegue ao serviço.

É também uma estirpe que se tornou, ao contrário da inglesa, fanática pelos jogos de futebol, o que não permite ao cidadão português, amante de bola, ir ao estádio. Pela razão oposta da estirpe inglesa, demasiado snob para desportos populares, e que deixa os sortudos cidadãos britânicos livres de qualquer impedimento de se deleitarem com os jogos dos seus clubes de eleição.

Por outro lado, a nossa estirpe é politicamente favorável à regionalização. Na cidade do Porto nunca ataca as pessoas que estejam à noite na rua a festejar os santos populares, não sendo ainda certo se atacará mais a partir das 23 horas ou se, neste caso, abdica de qualquer atividade noturna.

Em Lisboa, o vírus tem uma reação totalmente em linha com o seu dia-a-dia, não alterando o seu comportamento nem se deixando seduzir nem pela santidade nem pelo popular, que hoje tanto move os políticos.

Mas este sentimento regionalista não é só devido à época de festejos dos padroeiros, visto que já na experiência vivida nos restaurantes do Porto e de Lisboa se vinha a verificar esta alteração dos comportamentos virais.

Num restaurante do Porto as pessoas nunca podem sentar-se frente a frente, obrigando a que a conversa seja feita de cara à banda. Não há qualquer alteração no tipo de contacto pois, naturalmente, as pessoas estando lado a lado continuam a falar viradas uma para a outra mantendo exatamente igual a probabilidade de contaminação que ocorre nos restaurantes de Lisboa, em que a única vantagem é a de não se correr o risco de sair do almoço, ou do jantar, com um valente torcicolo.

Provavelmente, penso que ainda não foi confirmado, a estirpe portuguesa chegando ao Porto torna-se menos arguta e pode ser enganada pela disposição dos lugares na mesa, que dão a impressão de que um não está a almoçar com o outro e assim não se dissemina a doença.

Mas uma das mais importantes diferenças desta nossa estirpe lusa é o seu comportamento extraordinário como medicina preventiva. Num tempo em que estamos cada vez mais cientes do efeito do sol no desenvolvimento de doenças cancerígenas e em que não tivemos a mesma capacidade de deteção desses tumores devido ao constrangimento criado pela pandemia, o vírus decidiu que a praia será um dos locais de maior incidência das suas atividades. É de referir que a sua preocupação com a saúde dos portugueses é tão forte que nem sequer a questão de a praia se encontrar ao ar livre terá qualquer influência sobre a ineficácia da sua virilidade.

Meus caros amigos, sejamos razoáveis!

Não podemos continuar a criticar os nossos dirigentes por todas as dificuldades que tiveram em determinar critérios para combater este vírus que foi letal essencialmente para determinados tipos de grupos que não foram nunca protegidos, porque não podemos, em democracia, diferenciar entre pessoas, quando este vírus decidiu escolher Portugal para ser o seu local de maior criatividade.

Como quase diz o nosso fado: tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é parvo!

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