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Artigo de Bruno Bobone, Presidente da CCIP, na sua rúbrica semanal no Diário de Notícias.

Estamos há quase 60 dias fechados em casa. Muitos dirão que o confinamento foi indispensável pois sem isso não se teria contrariado a fatalidade da pandemia.

Outros dirão que não era preciso fazer tanto, pois existem exemplos em que menores rigores tiveram iguais efeitos.

O que eu sei é que com menos de 60 anos apenas morreram 640 pessoas. Que a maioria das pessoas que acederam aos cuidados intensivos tinham mais de 60 anos. Que os novos desempregados são praticamente todos de idade inferior a 60 anos. Que a economia poderia ter funcionado abertamente com todos aqueles que, com menos de 60 anos, arriscando ser infectados com o vírus, mas sem consequências letais, teriam mantido o mundo numa actividade razoável e sem se expor a uma situação de pobreza dramática que iremos enfrentar.

É muito difícil tomar decisões em face de uma situação nova e desconhecida, quando ainda não se sabe como se vai desenvolver. Mais difícil ainda quando em resultado dessas decisões podem ocorrer mortes.

E é praticamente impossível nestas circunstâncias decidir contra tudo aquilo que o mundo inteiro parece acreditar.

É por isto que estamos em confinamento e estamos tão tranquilos. Contudo, penso que aquilo que aprendemos das experiências passadas devia ter-nos colocado noutro caminho, mais inteligente e, ainda que prudente, menos nefasto para a população.

Nisto, penso que falharam as nossas elites, uma vez que quase todos têm sido mais ou menos coniventes com as decisões tomadas.

Na realidade, a primeira abordagem dos serviços públicos sobre a pandemia foi despreocupada e ligeira - como tendem a ser quase todas as opiniões daqueles que nos lideram. Que a doença não iria chegar a Portugal, que não seria tão contagiosa e que as máscaras seriam até negativas para a contenção da doença são três exemplos da irresponsabilidade de quem nos dirige.

Estas três afirmações são inúteis, não têm sentido, num momento em que nada se conhece, e desmobilizam a prudência dos cidadãos face a um potencial perigo.

Depois confinámos uma primeira vez a totalidade do país. Já nessa altura se podia concluir que esta pandemia era extremamente contagiosa, mas que efectivamente apenas era letal para as pessoas mais idosas e para os que tivessem outras determinadas doenças.

Aceita-se a primeira decisão ainda que se devesse já nesse momento preparar as condições para que se protegessem aqueles que seriam os principais prejudicados pela doença e que seriam também os principais responsáveis pelas dificuldades do SNS, ao ocuparem em grande número as camas de cuidados intensivos.

Hoje, ao fim de mais um confinamento total, e quando começamos a verificar os resultados das medidas tomadas, através do número de desempregados que apenas começou a subir e do aumento do número das famílias que necessitam de apoio para a sua sobrevivência, percebemos que teria valido a pena apostar noutro caminho.

Fugir do politicamente correcto em que não se quis assumir que a idade era verdadeiramente um factor de letalidade, que se justificava confinar uma parte da população, obrigando os restantes a cumprir normas de protecção exigentes para viverem um dia-a-dia normal que lhes permitisse continuar a trabalhar e viver, seria a solução que menos prejudicaria a vida de muitos que serão os que pagarão os custos das decisões tomadas.

Para manterem a sua imagem perante aqueles que teriam de ser confinados para objectivamente ultrapassar os perigos desta doença, optaram os nossos dirigentes por fechar toda a economia. Em vez de sofrerem uns quantos por uma falta de liberdade destinada a protegê-los deste mal, vão pagar muitas famílias com uma vida de pobreza por terem perdido tudo o que tinham durante este período em que não quisemos viver.

Assim como nas vésperas da Segunda Guerra, as decisões foram tomadas por medo de se assumir uma posição de força face a um mal que acabaria por destruir a Europa. Desta vez, o mal também beneficiou do medo de afectar a qualidade de vida de apenas uma parte, acabando por prejudicar enormemente muitos outros.

Ainda não aprendemos a ouvir Churchill.

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