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Artigo de Bruno Bobone, Presidente da CCIP, na sua rúbrica semanal no Diário de Notícias.

Assistimos nos últimos dias a um absurdo na distribuição de vacinas, sem qualquer razão de prioridade e apenas porque, de uma forma ou de outra, o poder de decidir falhou e usaram-se critérios errados. Tal foi feito de forma abusiva, seja por falta de controlo, seja por más decisões.

A verdade é que, num momento em que estamos a viver uma situação de crise profunda, em que há pessoas em risco de morte iminente por terem características específicas e que, por isso, eram consideradas prioritárias na vacinação, foram preteridas por outras que não o eram.

E isto numa altura em que todo o processo está sob o intenso escrutínio não só da comunicação social, mas de toda a população. E a tolerância para este tipo de erros não é - nem pode ser - grande.

O pequeníssimo número dos decisores que passaram por esta situação e que se demitiram vem demonstrar a falta de preparação e de qualidade que têm muitas das nossas elites e da permissividade em que se encontra a nossa sociedade.

Estamos agora também na iminência de receber uma enorme quantidade de dinheiro da Europa - a bazuca - e, como no caso da distribuição das vacinas, a sua atribuição vai passar por decisores que estarão nas mesmas condições dos que decidiram sobre aquelas.

Ora, num tema que não implica a morte de cidadãos e em que a capacidade de controlo é muito mais difícil de implementar, com a permissividade e falta de qualidade, como é que podemos acreditar que se vão aplicar aqueles capitais sem a interferência dos que decidem em seu próprio favor ou que, por incapacidade, deixam que os seus próximos se aproveitem?

O país está a sofrer com uma pandemia e já sabemos que não a tratámos com o cuidado necessário. Permitimos demasiada influência ideológica e faltou o rigor que seria indispensável.

Ao mesmo tempo, assistimos a uma falta de rigor nas atitudes de vários ministros e na aplicação das vacinas - acredito que sem conhecimento do governo. Isto deixa-nos com uma enorme desconfiança, injusta por vezes, sobre todos os que são responsáveis neste país.

O país está doente muito para lá da pandemia!

Não temos formação das nossas elites, dos nossos decisores. Precisamos de investir em formação técnica, mas muito mais em formação cívica, em que os responsáveis assumam o seu papel de servir o país e não a si mesmos. Precisamos de mostrar que vale a pena lutar por Portugal e compreender que será muito mais o que ganhamos juntos do que aquilo que cada um pode fazer por si roubando os seus iguais.

Mas precisamos também de uma liderança corajosa, que intervenha quando as coisas estão mal, que não se desculpe, mas que assuma a responsabilidade de mudar.

Sem estas duas mudanças, o país continuará a definhar e a estar sujeito ao saque daqueles que não têm vergonha. Sujeitaremos todos aqueles que não têm poder a uma situação em que nem uns nem outros viverão melhor e em que a podridão começará a eclodir.

Podemos continuar a beneficiar de todas as ajudas, seja de vacinas, seja de apoios financeiros, mas, se não mudarmos a nossa maneira de conviver em Portugal, morrerão os mais frágeis por não receberem vacinas. E morrerá o país porque lhe roubarão os apoios. E quanto mais dinheiro for injetado neste sistema, maior será a sua podridão.

É fundamental acreditar que temos de formar elites fortes para termos gente forte neste nosso Portugal!

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