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Bruno Bobone, Presidente da CCIP, foi entrevistado para a revista 100 Maiores e melhores empresas – distrito de Leiria e concelho de Ourém, uma publicação do semanário REGIÃO DE LEIRIA.

Trata-se de uma publicação de 164 páginas dedicada à dinâmica empresarial do distrito de Leiria e concelho de Ourém, com rankings quantitativos, qualitativos e geográficos, permitindo uma radiografia da actividade empresarial deste território. A revista é referenciada como o primeiro grande estudo que se publica anualmente sobre o desempenho das empresas.

Ao longo da entrevista, Bruno Bobone, fala da situação socioeconómica do país, do trabalho que as empresas nacionais têm desenvolvido ao nível da internacionalização, o papel da CCIP na economia portuguesa, a economia do mar, e muitos outros temas.

Veja agora a entrevista conduzida por Hermínia Saraiva.

 

"Temos um mercado: é o mundo, e temos que saber geri-lo à nossa medida"

Acredita que Portugal saiu da crise graças à coragem das empresas de se internacionalizarem. As mesmas empresas que garantiram que "os produtos portugueses já não estão na última prateleira do supermercado".

 

Como avalia a situação socioeconómica do Pais?

Nas últimas décadas temos vivido em condições um pouco pobres e continuamos a fazer um caminho que não nos vai tirar da pobreza. Porque não podemos achar que estamos a contribuir para o desenvolvimento do pais se não trouxermos alguma riqueza aos portugueses. Nessa perspetiva tenho defendido que é preciso mudar o paradigma. Uma das condições é fazer crescer a economia e recuperámos da crise em que estivemos envolvidos, não porque a troika tenha feito alguma coisa, não porque os governos tenham feito grandes mudanças, mas fundamentalmente porque as empresas inverteram o ciclo que estavam a viver e tornaram-se uma fonte de rendimento, equilibraram a balança de pagamentos, trouxeram riqueza ao país. A crise trouxe-nos alguma vantagem, as empresas não puderam depender tanto do Estado, tiveram que ir à procura de soluções. tornaram-se autónomas, saíram daqui e fizeram um grande trabalho. Houve um crescimento da internacionalização que nos deu dimensão, capacidade de intervir no mercado, empresas mais fortes, mais competentes. Isso é fundamental, mas temos que passar à fase seguinte. Fazer a distribuição dessa riqueza. Porque não basta ter riqueza, é preciso uma distribuição justa por duas razões: primeiro, porque é justo e isso é indiscutível. Segundo porque é eficaz. Se distribuirmos a riqueza vamos comprometer as pessoas que recebem essa riqueza a estar mais motivadas, mais envolvidas, e serão um ativo muito mais valioso para as empresas, para o pais e para a economia.


Como é que isso se faz? Aumentando o salário mínimo nacional (SMN)?

O SMN é uma conversa do século passado, já não tem qualquer sentido. O salário mínimo não permite a ninguém viver com dignidade e, portanto, não pode ser um objetivo nem das centrais patronais, nem dos sindicatos. Eventualmente tem que existir um salário mínimo para que não haja abusos. Mas não pode ser esse o objetivo. Um salário digno tem que ser muito superior ao que é hoje o SMN.

 

Mas quem estabelece esse salário digno?

Cada caso será um caso. Tem que haver uma certa responsabilidade de parte a parte e aí as centrais sindicais e as entidades patronais podem ter um papel fundamental, mas têm que se dedicar a estabelecer as regras e os critérios para isso. O salário digno só é possível se houver um aumento de produtividade das empresas. Porque com a riqueza que produzimos hoje não é possível. Tem que se dar às pessoas a possibilidade de ganharem mais, mas com a contrapartida que estão mais comprometidas e conseguem ajudará produtividade. Isto é claramente um projeto comum de trabalhadores, gestores e patrões.

 

Do seu ponto de vista, em termos de valor, o que é um salário digno?

É muito difícil estar a dizer um valor porque cada realidade é uma realidade, viver em Lisboa é diferente de viver no interior. Não se pode dizer que há um número mágico. Mas o salário digno é aquele que permite a uma pessoa ter a sua família. pagar a casa, a educação dos filhos, ter alguma capacidade de entretenimento, desenvolver-se culturalmente, e isto tem que ser estabelecido como mínimo, não é só ter dinheiro para se alimentar. Porque viver não é trabalhar.

 

Qual é o papel da CCIP na economia portuguesa?

Temos todo o nosso trabalho na internacionalização. As empresas portuguesas fizeram esse desenvolvimento desde o início da crise. mas nós desde 2004, antes da crise, que começámos a trabalhar nisso e a dar às empresas oportunidades. Como? Estudamos mercados, acompanhamos as empresas em missões, dando um acompanhamento muito mais completo do que a maioria das outras organizações, porque fazemos missões pequenas para que as empresas sejam verdadeiramente acompanhadas. Temos organizações do outro lado, muitas vezes com as Câmaras de Comércio Portuguesas no exterior, que nos ajudam a montar reuniões. Preparamos isto com um cuidado enorme e isso tem dado muitos resultados. A solução tem sido tão boa que hoje em dia somos procurados pelas empresas para fazer missões individuais.

 

Como definem os mercados? Para onde estão a olhar?

Estamos a olhar para o mundo inteiro. Começámos pelos mercados mais óbvios, depois fomos aos mercados mais importantes, e agora já estamos a ver os mercados de oportunidade. Estudamos o que é a produção do mercado português e tentamos juntar o interesse do mercado e o interesse da produção. Mas também seguimos sugestões dos nossos associados ou de alguém que tenha feito alguma aproximação à CCIP. Preparamos sempre a missão com uma apresentação do país, tentamos trazer organizações que já estejam lá a trabalhar, que expliquem como é que entraram...

 

Organizações portuguesas?

De preferência. Quando não há portuguesas vêm de outro país, porque apesar de tudo é melhor ter a noção de um estrangeiro que entrou num pais do que não ter. As empresas que têm experiência lá podem contar quais são as dificuldades reais que se vão encontrar. Todo o trabalho é feito profissionalmente, nós precisamos de ganhar dinheiro, porque como não somos subsidiados pelo Estado temos mesmo que dar um resultado efetivo do trabalho que prestamos.

 

O que ganham com essa independência face ao Estado?

Eficiência. Porque quem depende do Estado acaba por estar dependente das normas com que lhes é atribuído um subsídio. Quando me candidato a fazer uma missão e a receber um determinado fundo, tenho que fazer a missão obrigatoriamente, quer tenha clientes ou não. Ao passo que assim posso fazer exatamente o contrário: procuro quem procura determinado mercado, tento marcar umas datas, se as empresas preferirem outras, mudo, se as empresas em última instância não aparecerem, não vou. Não vou encher a missão com pessoas desinteressadas apenas para dizer que fiz esse trabalho. Por outro lado, dá-me uma autonomia relativamente ao Estado enorme. Posso dizer e fazer aquilo que acho que devo fazer, sem estar nunca sujeito a uma critica por parte de quem me paga, o que obviamente me condicionaria. Portanto, é muito importante, não é só publicidade.

 

De qualquer maneira, mantém algum relacionamento com o Estado…

... total, mas de exigência e não de subserviência. E a AICEP tem trabalhado connosco extraordinariamente bem, até porque somos complementares à AICEP, quando em cada país temos a versão privada daquilo que a AICEP tem.

 

Tendo independência para fazer exigências ao Estado, o que deve ser exigido para garantir o aumento da competitividade internacional das empresas portuguesas?

As empresas portuguesas precisam, em primeiro lugar, de estruturas fortes para competirem no mercado internacional, precisam de capital e estruturas de gestão. Isso dificilmente o Estado poderá... quer dizer, pode. Se houver uma política fiscal promotora do desenvolvimento das empresas é evidente que estas vão ter uma estrutura mais forte e mais capacidade para intervir nos mercados externos. É muito mais importante ter empresas ricas que distribuam pelos seus trabalhadores a riqueza e que depois o Estado venha a beneficiar do imposto pago por todos, do que estar a ir à essência buscar o dinheiro que depois já não é distribuído. A política fiscal é claramente uma das áreas onde o Estado devia fazer mais. À parte disso, nos mercados de destino devia criar condições para que as empresas portuguesas tenham no mínimo iguais facilidades, ou eventualmente, se pudermos ter mais, melhor.

 

Neste momento quais são os mercados mais atrativos para as empresas portuguesas?

Depende dos sectores, depende das empresas. Há empresas preparadas para determinados mercados, outras não. Um dos locais onde temos um sucesso extraordinário é, por exemplo, nos mercados mais recônditos de África onde conseguimos estar com urna postura que praticamente mais ninguém no mundo é capaz de ter, porque nos adaptamos às populações, aos costumes, porque estamos dispostos a colaborar com as pessoas. Agora, também não estamos a dizer que todos as empresas devem ir para esses mercados. É difícil escolher. Temos um mercado: é o mundo, e temos que saber geri-lo à nossa medida.

 

Já não há vergonha do Made in Portugal?

Antes pelo contrário. Há orgulho e há um reconhecimento internacional daquilo que é produzido em Portugal. Já não estamos na última prateleira do supermercado, antes pelo contrário. Portugal é procurado, tem produtos de grande qualidade e a nova indústria vem mostrar isso. E a velha indústria que também se transformou. Repare nos sapatos, a evolução que a indústria dos sapatos fez nos últimos anos foi extraordinária. A indústria dos moldes tem-se reformulado e hoje em dia é uma referência no mundo. Portugal reinventou-se. Agora precisa de ultrapassar a questão da mão-de-obra barata e passar a ter um salário digno.

 

A CCIP tem defendido a economia do mar como fator de desenvolvimento do país. Porquê?

Temos um território terrestre com 95.000 km2, um território marítimo com 1,7 milhões e estamos a candidatarmo-nos à gestão de 3.8 milhões km2. Estamos a falar de ser um país maior do que a índia. Queixamo-nos que somos um país pequeno. Não é verdade, somos um país enorme e devemos especializarmo-nos no que temos no nosso território. Se não temos terra, porque está completamente explorada, e temos mar, é no mar que temos que fazer o nosso desenvolvimento. O mar, é o futuro.

 

De que forma é que a região de Leiria, que tem cerca de 60 km de costa, pode aproveitar este potencial considerando que duas assembleias municipais chumbaram a prospeção de petróleo na zona?

Essa é a primeira asneira. Temos a possibilidade de ter riqueza de recursos naturais e estamos a tomar uma atitude que já tomámos no passado em relação à energia nuclear, [alegando] que tinha efeitos negativos para o ambiente, e que é hoje a base da contestação à exploração de petróleo. Com isso acabamos por perder uma riqueza que, se fosse explorada, nos podia permitir fazer a transferência de energia suja para a energia limpa, podíamos transformar um país pobre num país com capacidade para grandes investimentos. No final, temos o mundo sujeito aos perigos que estamos a querer evitar com todos os outros a beneficiarem dessa riqueza e os únicos que perdem somos nós. Pensar que isso é burrice.

 

Mas como é que exploração petrolífera se conjuga com o turismo que é neste momento um dos maiores ativos nacionais?

Não tem problema. Na costa de Aljezur, por exemplo, estamos a falar em fazer prospeção a 50 km da costa. A nossa capacidade de visão quando estamos à beira mar é de l8 km no máximo num dia limpo. E a 30 km passam navios cheios de lixo atómico, com tudo e mais alguma coisa e nunca ninguém levantou problemas. Sem esta exploração, e primeiro é preciso provar que é rentável, estamos mais uma vez a apostar na pobreza do país, que é resultado da nossa própria decisão, não é uma condição que nos foi dada.

 

Como é que vê o tecido empresarial da região de Leiria?

O tecido empresarial da região de Leiria é desde há muitos anos dos tecidos mais fortes do pais, tem grandes empresários, gente muito trabalhadora, com grande capacidade de investimento, com grande coragem. O tecido empresarial é fortíssimo, cria muita riqueza, distribui bastante riqueza. Como as empresas não são excessivamente grandes, e há uma ligação muito grande entre os patrões e empregados, isso acaba por ser uma forma de trazer o salário digno sem ser pelas estruturas de que estava a falar.

 

A região tem um papel importante em termos de internacionalização?

Tem um papel importante, aqui na CCIP há um grupo de seis empresas que são nossas associadas e participam bastante na parte de internacionalização. Mas há muitas empresas não associadas, e que deviam ser, que também têm usado o nosso serviço de missões, vão a muitos destinos, e acabam por ser empresas que têm desenvolvido grandes trabalhos nos destinos onde vão.

 

Agora que a crise está ultrapassada, quais são os desafios das empresas portuguesas?

A partir do momento em que as empresas começaram o caminho da internacionalização, aumentaram diariamente os desafios, porque cada vez é preciso chegar mais longe, ser mais eficiente, garantir que ganham mais mercado. E agora vamos começar a ter o que não tivemos no princípio: as outras empresas a olharem para nós como rivais a sério, enquanto que antigamente achavam que não eramos capazes e davam-nos a possibilidade de entrar. Agora temos que ser mais competentes, ter mais capacidade de combate para podermos ganhar os mercados onde temos que ir, até porque os mercados que ganhamos foram os mais óbvios, e aqueles que temos que ganhar são aqueles que são mais competitivos e mais difíceis.

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