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Artigo de Bruno Bobone, Presidente da CCIP, na sua rúbrica semanal no Diário de Notícias.

A Alice viveu toda a sua infância no País das Maravilhas. Mas, quando cresceu, percebeu que vivia afinal no país do medo.

Um país em que os governantes não governam, em que os empresários não empreendem, em que os trabalhadores não trabalham, em que os vizinhos não se ajudam - porque todos têm medo.

Uns têm medo de perder o lugar, outros têm medo de arriscar, outros ainda têm medo de perder e há ainda outros que têm medo de parecer bonzinhos e que isso os poderá prejudicar.

Um país em que os empresários se tornaram dependentes do Estado para diminuir o risco do seu empreendimento e em que se focaram no salário baixo por medo de arriscar pagar para ter maior benefício.

Onde os trabalhadores têm medo de tudo dar pela empresa em que trabalham e que preferem combatê-la em vez de garantirem o seu êxito, por medo de não receberem o resultado do seu trabalho.

Onde dirigentes sindicais e patronais têm medo de concordar para resolver os seus diferendos por pensar que perderão os seus lugares.

Um país em que os cidadãos têm medo de ajudar os outros por não acreditarem que são membros da mesma sociedade e que partilham responsabilidades sobre a mesma.

Um país em que os políticos têm medo de dizer o que pensam para não serem expostos na imprensa e arriscarem perder o seu lugar. Em que o governo não decide mudar por medo de perder as eleições.

E foi neste país que a Alice tem vivido a pandemia da covid:

- Fechada em casa sem abrir a porta aos vizinhos, com medo do vírus, ainda que dizendo que é para defender os outros.

- Forçada por um governo que tem medo de ser responsabilizado pelos resultados das suas decisões e que prefere tomar as que mais facilmente nos inibem de viver, apesar dos efeitos gravíssimos nas nossas vidas -e porque estamos no país do medo ninguém os responsabilizará por elas.

Por outro lado, foi também pelo medo que conseguimos vencer a primeira fase do vírus. A nossa adesão à vacinação foi claramente uma forma de expressão do medo que grassa neste país, ainda que desta vez com resultados muito positivos.

Pena é que o medo tenha voltado a pôr-nos em casa. Com efeitos da pandemia completamente controlados graças ao sucesso da vacinação, nós, por medo, voltámos a fechar-nos, como se não estivéssemos vacinados e com os resultados que se verificam noutros países que, curiosamente, na sua maioria têm medidas de contenção muito menores do que as nossas.

Mas os nossos governantes e a sua oposição sabem que nós temos medo e, por isso, não duvidam uma única vez em prejudicar-nos um pouco mais - só por precaução.

E mandam fazer testes a todos os que não precisam, estragam a vida a todos os que querem viajar porque têm medo de um vírus que, em Portugal, não passa de uma gripe que parece mais generalizada, mas que nem isso sabemos, pois nunca ninguém se foi testar só para saber se acordou com gripe, nem nunca foi considerado morto por gripe quem morreu num acidente de viação ou de ataque de coração...

Por isso a Alice não compreende para que serviu o esforço se ninguém o valoriza. Se não tivéssemos sido tão cumpridores viveríamos exatamente o mesmo sacrifício.

E pensou que este medo destruiu o seu País das Maravilhas!

E a Alice saiu de casa, levou as crianças à escola e foi trabalhar. Tirou a máscara e foi respirar a brisa que vinha do mar, onde os valentes do seu país arriscaram sempre a vida, sem medo de morrer.

E foi viver, porque viver com medo também é morrer.

 

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