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Artigo de Bruno Bobone, Presidente da CCIP, na sua rúbrica semanal no Diário de Notícias.

Francisco Pinto Balsemão viveu uma vida ligada à intervenção na sociedade portuguesa.
Foi jornalista, empresário e político. Até hoje esteve sempre presente nos momentos que marcaram a vida do nosso país e nunca abdicou de ser quem é, quaisquer que fossem as contrariedades e as dificuldades da situação.

Foi, em todo o seu percurso de vida, um democrata que acreditou sempre na verdade e na isenção da informação. Promoveu a separação do poder económico da liderança dos projetos de informação.

Quando foi primeiro-ministro promoveu a revisão constitucional que permitiu a introdução da democracia em Portugal.

Promoveu sempre a modernidade e com coragem liderou a evolução da comunicação no nosso país. Criou o primeiro canal de televisão privado e tornou-o líder na comunicação social.

Mas acima de tudo foi um homem de grande coragem que se expôs publicamente sempre que o país, a sociedade ou o seu projeto empresarial o necessitavam.

Mas foi também um homem com defeitos e não os escondeu. Não caiu na tentação de parecer quem não era, ao contrário daquilo que hoje é o comportamento de quem quer chegar ao sucesso.

A sua ambição foi participar na sociedade em que viveu. Foi criar e desenvolver, mais do que ser reconhecido. E só assim se consegue verdadeiro sucesso.

Passou momentos muito complicados em que teve de assumir responsabilidades sobre muitos ou mesmo sobre todos nós. A morte de Sá Carneiro, a crise da comunicação social e as traições a que se refere regularmente, com mágoa, foram desafios que soube superar com um rigor e uma determinação que fazem parte do seu caráter.

Muitas vezes ouvi dizer que não tinha as características para o lugar político que ocupou ou que não tinha a coragem de liderar o seu jornal com a força de condicionar as opiniões dos seus jornalistas.

Pois é aí que eu encontro a maior razão para este meu texto. Um homem que não tinha as características ideais para a política foi primeiro-ministro de Portugal no momento mais difícil do pós-25 de Abril, em que foi fundamental evitar uma crise interna provocada pela exigência de vingança pela morte de Sá Carneiro e, ao mesmo tempo, não perdendo a oportunidade de criar uma Constituição que permitiu a afirmação da democracia.

Um homem que teve a coragem de não mandar na opinião dos seus jornalistas, sujeitando-se à critica e à condenação dos seus próprios atos é, sem dúvida, um homem valente.

Que pena não termos criado mais homens destes, que são pecadores, que são limitados e que tanto bem fazem pelo nosso país e para que possamos, todos nós, viver melhor.

Que farto estou de homens perfeitos que parecem fazer tudo bem e que pouco ou nada contribuem para o nosso bem-estar. Antes pelo contrário, por quererem sempre manter essa imagem de perfeição falsa em que o povo quer acreditar, não assumem as suas responsabilidades e não nos ajudam a crescer.

É a este homem que presto hoje homenagem.

Um homem que se diz de esquerda e que fundou o partido que liderou a direita portuguesa durante os últimos 46 anos da nossa história.

Um homem de defeitos a quem tenho de agradecer, com quem tantas vezes discordo e que, por isso mesmo, preciso de conviver.

A verdade não é de ninguém e deve ser sempre independente.

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